centrada e descontrolada

"Todas elas juntas num só ser."

Vê Guimarães

Dona de casa desesperada, assistente social, viciadas em séries policiais. Ainda acredito "é na rapaziada" e por vezes acho que sou escritora...
"Eu sou daqueles que vão até o fim." Mário de Sá Carneiro

Não seremos gado marcado

Essa necessidade gratuita de agressão, preconceito exacerbado vêm acabando com relações estáveis de amizade, transformando redes sociais (que antes eram vistas como locais de diversão) em campos minados, onde se destilam ódio, rancor, preconceito e exposição não consentida.


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Quando eu comecei a elaborar essa postagem, achei que iria falar de política e dos desatinos pelos quais temos passado em nosso país. Mas, ao colocar as ideias no papel (sim, eu escrevo no caderno depois passo pro computador, sou velha), logo tive a certeza de que meu texto falaria da linha tênue entre sanidade e loucura ou desamor versus preconceito. Tanto faz.

Cerca de alguns dias atrás, navegando pelas redes sociais, me surpreendi com uma postagem feita por um homem cheio de ódio e rancor. Nessa postagem, havia a fotografia de uma bunda feminina (lindíssima por sinal) com estrias (aquelas listras que nós mulheres tanto odiamos). A foto foi compartilhada na rede social “zilhares” de vezes e dentro dos comentários tinham frases ferozes e também manifestações de apoio. Pasmem! Os apoios eram bem maiores que os ataques, mas mesmo assim eu pensei: ainda que muita solidariedade tenha sido lançada, os comentários truculentos mesmo em menor número, causariam mais impacto (o ódio tem essa função).

Daí comecei a questionar como surgem os “xiitas” brasileiros? A troco de que a pessoa para os seus afazeres (interessantes ou não) e publica e/ou comenta coisas absurdas repletas de rancor contra outrem? Por que os estereótipos estão tão marcados igual iniciais de fazendeiros em lombos de animais? Cadê o direito à liberdade de ser e poder: Ou simplesmente de não ser e não poder?

Essa necessidade gratuita de agressão, preconceito exacerbado vêm acabando com relações estáveis de amizade, transformando redes sociais (que antes eram vistas como locais de diversão) em campos minados, onde se destilam ódio, rancor, preconceito e exposição não consentida.

Que direito tem esse cidadão que fotografou a bunda da moça, de lançar na rede algo tão íntimo com uma legenda absurdamente pejorativa ? Em que momento essa jovem permitiu que uma parte do seu corpo fosse exposta de tal maneira? Tudo isso me irritou profundamente.

Eu, a moça da postagem e tantas outras mulheres mundo a fora, devemos ser olhadas como um olhar de reprovação? Por quê? Só por carregarmos marcas em nossa pele? Marcas estas que nos fazem ser quem somos, que contam nossas histórias. Ter estrias ou celulites não faz de ninguém mais ou menos, não nos coloca no rol dos com ou sem caráter, por simplesmente não nos encaixarmos nesse padrão equivocado de beleza que a nossa sociedade impõe goela a baixo.

Fica aqui registrada a minha indignação com esse mundo patético e sem noção, que cria na cabeça de uma bando de gente como o moço que realizou a tal postagem, um efeito de superioridade: pelo tom da pele, pelo gosto musical, pela orientação sexual, pela religião, pela classe social, pelas diferenças físicas, pelo nível de conhecimento literário.

O meu profundo desejo é que qualquer pessoa possa viver sem medo de ser aquilo que podem e desejam ser. “A gente fica mordido, não fica?” (Liniker) Fica sim. Muito mordido!


Vê Guimarães

Dona de casa desesperada, assistente social, viciadas em séries policiais. Ainda acredito "é na rapaziada" e por vezes acho que sou escritora... "Eu sou daqueles que vão até o fim." Mário de Sá Carneiro.
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