chá com bolacha e arte

Refletindo, refleti.

Mariana Pelet

Redatora na Obvious. Cinéfila, chocólotra e com ideias na cabeça.

Virtualidade, emoções de plástico e a aparente fobia de pessoas

Eis a questão: será que a internet está apenas reforçando a timidez de algumas pessoas ou criando um número cada vez maior de acanhados?


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Como meu processo produtivo funciona como o esquema dos poetas antropofágicos do Modernismo Brasileiro, vou agregando ideias, relatos e teorias, e os depositando em cada uma de minhas vértebras até preencher isso a que chamo de coluna. Como agora é só fazer uma pequena punção e descarregar o assunto, aqui vai! Enfim, o que vos trago nesse doce novembro (Pegou a referência? Não? Então jogue no Google e assista ao filme!) é uma questão um tanto quanto dramática.

Que a internet é parte essencial de nossas vidas todos sabemos. Conversar com amigos e parentes que moram longe ou até com aqueles que se encontram no mesmo bairro via redes sociais, está se convertendo em um novo formato de interações de nosso tempo. Mas, até onde o contato humano pode ser dispensado sem causar nenhum mal? Algumas situações cotidianas nos permitem analisar as diferentes possibilidades de comportamento, mediadas ou não pela tecnologia, dentre elas: o despertar de interesse por alguma pessoa e a interatividade com amigos e familiares. Se você vai a uma festa e encontra AQUELE menino ou AQUELA menina, o que você faz? Prepara uma cantada mentalmente e “vai na fé”, ou saca seu celular e começa a “stalkear” a pessoa? Mesmo que você responda e realmente faça a primeira opção, é mais do que óbvio dizer que você compõe uma minoria gritante do século XXI. No entanto, mesmo que você, caro membro da geração Y ou Z, não vasculhe as redes sociais em busca de seu alvo, é fato que iniciar uma conversa com alguém muitas vezes se torna um impasse. O muro que erguemos diante de nós mesmos a cada vez que criamos um novo perfil nas mais diferentes redes sociais tanto representa uma maior visibilidade, ainda que seletiva, de nossa vida pessoal, como a construção de máscaras e símbolos que criam o ideal de felicidade perpétua (mas estes são temas para outras discussões). Isso significa dizer que vivemos hoje uma espécie de dicotomia em que nos mostramos mais disponíveis aos outros, mas também nos retemos em nossas casas com uma frequência maior, quase como se estivéssemos evitando o contato com outros da mesma espécie.

Então, dizer que há cinquenta anos conquistar alguém ou iniciar uma nova amizade era mais fácil, é de certo modo pedante, visto que o mundo gira, as pessoas mudam, tecnologias são desenvolvidas e as diferentes culturas e suas relações sociais se adaptam à nova realidade construída. Todavia, para não soar incongruente, acredito que a internet enquanto peça importante de nossa época, agrava as características pré-existentes das novas gerações (Y e Z). Se desde os anos 1980 temos jovens inseridos na realidade virtual, ainda que de maneira elitizada e rudimentar, os da geração Z vão se configurar como os “premiados” com tamanha profusão de tecnologias digitais, traçando o típico perfil do jovem conectado 24/7.

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Assim, interagir com pessoas novas se torna uma complicação na medida em que tudo o que se vê delas nas redes sociais são momentos de descontração, vidas felizes, círculos de amizade sólidos, “rolês” em lugares legais com boa comida, dentre outros. A típica necessidade de mostrar que somos felizes o tempo todo, acaba bloqueando pessoas naturalmente frágeis e inseguras que fazem parte das gerações mais recentes. A partir daí, outro ponto que permeia esse perfil de timidez ganha destaque: a perda da espontaneidade e o hábito de pensar demais antes de digitar. É claro que uma atençãozinha ao nosso querido e amado português nunca é demais. Mas privar nossos interlocutores de lerem o que realmente queremos dizer, de forma que o que é lido não pode ser comparado com nossa fala habitual chega a ser patológico. A alimentação do medo de pessoas e do receio de ser mal interpretado cerceia nossa capacidade de nos fazer ser percebidos no mundo, de expormos realmente nossa personalidade, como em uma genuína afirmação identitária.

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Nessa direção, culpar somente nossas gerações é uma forma de nos isentar da responsabilidade de deixar o celular de lado ao sentarmos à mesa com alguns amigos e parentes. Tudo o que precisamos fazer é nos desligar por algumas horas e aproveitar o momento com pessoas de carne e osso que tiveram o trabalho de se arrumar e sair de casa para estar conosco. Além disso, vale tentar parar de fingir que mexe no celular enquanto espera o elevador chegar ou quando aguarda na fila do banco e arriscar uma conversa com um estranho do lado sobre o clima. Nunca se sabe quando você pode encontrar um bom amigo ou um futuro parceiro, não é mesmo?

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O perigo em se deixar levar pela tecnologia o tempo todo é o desenvolvimento de emoções de plástico, que gradativamente nos convertem, como em um processo de mecanização e desumanização, em produtos sintéticos da indústria informacional, que por sua vez, é fruto do neoliberalismo. Algo similar já dizia o sábio Durkheim, ao teorizar a Solidariedade Orgânica como o destino das sociedades capitalistas. No entanto, para não radicalizar, podemos dizer que é possível viver em um mundo cujas relações sociais sejam baseadas em laços econômicos, contanto que se mantenha a humanidade das mesmas.

Desse modo, é válido prestar mais atenção nas conversas de Facebook e Whatsapp afora, em que frequentemente usamos “emojis”, “emoticons” e expressões oriundas do internetês para nos comunicarmos com outras pessoas. Quantas vezes você se flagrou digitando um quilométrico “kkkkkkkkkkk” sem na verdade esboçar um mero sorriso? Essas práticas são exemplos concretos de manifestação das falsas emoções que estamos adquirindo com o uso abusivo (repito: abusivo) da internet. Questões como essas só ganharam minha atenção há poucas semanas atrás, em que durante uma discussão com um professor, debatíamos a involução que o ser humano está sofrendo com a internet ao usar cada vez menos palavras para se expressar e interagir, substituindo-as por símbolos, figuras e abreviações. Contudo, encontrar o equilíbrio entre o extremamente superficial e o humanamente aceitável é pessoal, além de termos sempre uma pessoa mais lúcida (ou menos alienada, como preferir) por perto para dar aquele puxão de orelha: “Larga esse celular”.

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Diante de tudo isso, é fácil perceber a emergência de autoavaliações em relação a essa temática tão delicada. É importante ressaltar que o limite é a chave para preservarmos o restante de “humano” que temos e ainda aproveitar ao máximo as facilidades que a internet pode nos proporcionar, sem é claro, comprometer o contato que estabelecemos uns com os outros e a nossa capacidade de aprendizagem e escrita. Escutemos o renomado Aristóteles e encontremos o justo meio, porque somente ele nos transformará em pessoas melhores e mais equilibradas.


Mariana Pelet

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