chá com bolacha e arte

Refletindo, refleti.

Mariana Pelet

Redatora na Obvious. Cinéfila, chocólotra e com ideias na cabeça.

Ex Machina: Instinto Artificial e a criação de humanos mais humanos.

Ex Machina – Um filme com duas indicações ao Oscar, que quase passou despercebido, mas que você errou ao ignorá-lo.


Ex-Machina-2015-Wallpaper.jpg Nunca fui uma fã de filmes sobre extraterrestres e robôs. Mas depois de ver a lista de indicados ao Oscar 2016, um filme em especial chamou minha atenção. Já tinha visto um dos trailers desse filme e algumas imagens de divulgação do mesmo. No entanto, como de costume, não me senti atraída, uma vez que se tratava de robôs. Não tenho preconceito contra filmes sobre avanços tecnológicos, engenharias e afins, apenas não me identifico com eles de cara. Isso talvez se deva à minha inclinação natural às ciências humanas. “Ex Machina” não é apenas mais um filme sobre inteligência artificial. Essa obra de arte aborda áreas profundas da sociologia moderna, no que tange ao papel da mulher perante a sociedade e sua forma de se relacionar com o sexo oposto. ex-machina.jpg Vamos por partes, como já enunciava nosso inesquecível Jack Estripador. Primeiramente, é importante ressaltar a qualidade da produção cinematográfica em questão. O diretor Alex Garland soube como misturar um elenco incrível, composto somente por atores relativamente novos na indústria do cinema. Dentre os principais estão Alicia Vikander, Oscar Isaac e Domhnall Gleeson. A personagem de Oscar, Nathan, o gênio responsável por uma das maiores empresas de tecnologia da época, iniciou um projeto de inteligência artificial. Ele selecionou o jovem mais apto dentro de sua empresa para testar o produto de seu trabalho em sua própria casa por uma semana. O agraciado pelo “concurso” foi o nerd Caleb, interpretado por Domhnall. Ele embarca nessa experiência sem saber exatamente o que o aguarda. Ao se estabelecer na casa de seu chefe, em um local isolado, Caleb logo conhece Ava, um androide com personalidade implantada artificialmente. Ava, interpretada por Alicia Vikander começa a conversar com Caleb sob a supervisão de Nathan. still-of-oscar-isaac-and-domhnall-gleeson-in-ex-machina-(2015)-large-picture.jpg Após algumas sessões de perguntas e respostas que Caleb é instruído a fazer ao robô, ele passa a estimular sensações, expressões e gestos intencionalmente no androide. Caleb também desenvolve certa empatia por Ava e chega a se apaixonar por ela, tornando o andamento do trabalho mais desafiador. O projeto de Nathan, já com sexualidade definida e personalidade própria começa a se voltar contra os dois, ao mesmo tempo em que manipula o jovem Caleb. Ava o faz, uma vez que começa a sentir a necessidade de descobrir o que seu criador pretende fazer com ela e o que Caleb tem a ver com tudo aquilo. O androide, com a confiança do assistente de Nathan ganha, começa a fazer perguntas sobre a finalidade dos interrogatórios. Caleb, conforme havia prometido a Ava, responde a tudo o que ela questiona ao mesmo tempo em que nota o medo que ela expressa. O jovem começa a investigar a conduta de seu chefe e descobre que Ava é só mais um “projeto de diversão” de Nathan, tal como Kyoko, um “brinquedo sexual” que ele mantem na própria casa. Caleb constantemente se sente impotente e desconfortável em relação à condição de Ava perante Nathan. Temendo que ela continue a ser tratada como mais projeto pessoal de Nathan, desmerecida e sem a atenção que costuma receber dele, Caleb decide se unir ao androide a fim de libertá-la, bem como seus semelhantes. Entre quedas de energia ocasionadas por Ava e conversas secretas, ambos arquitetam um plano de fuga da casa de Nathan. Ao se aproveitar do descontrole de seu chefe com álcool, Caleb liberta Ava, que sai pela casa atrás de seu criador. Ao ver Kyoko destruída em um dos corredores, Ava esfaqueia Nathan e tranca Caleb em um dos cômodos. O androide logo chega à sala onde seus semelhantes finalizados com pele artificial e cabelo se encontram. Ava se emociona e pega o revestimento externo de um dos androides todo para si. Logo em seguida, há um momento em que ela veste um vestido e se encara no espelho. Nesse momento, é possível perceber a epifania da personagem de Alicia Vikander, em que ela se encontra no mundo enquanto ser. Não um ser artificial ou humano, mas um ser com vontade própria e personalidade. Um ser autossuficiente e finalmente livre. Um ser prestes a construir vivências e lembranças como qualquer humano. ex-machina-3.jpg “Ex Machina” se mostrou um filme diferenciado não apenas pela qualidade de seus efeitos especiais, o que lhe rendeu uma estatueta do Oscar deste ano, mas também pela essência, densidade e variedade de discussões que desencadeia. Dentre as mais notórias: o papel da mulher mencionado anteriormente, esbarrando no feminismo e os prós e contras de se desenvolver projetos reais de inteligência artificial. O fato de Nathan criar androides com traços femininos e modelá-los ao padrão de beleza vigente, nos remete à resistente tentativa masculina de dominância sobre o sexo feminino. Usar Kyoko para se satisfazer sexualmente e produzir uma série de androides com finalidades semelhantes traduz tal relação como abusiva. O ideal de que a mulher é o sexo frágil ou que é simplesmente inferior ao homem, mostra o conservadorismo intrínseco à sociedade atual. Nathan tinha seus projetos sob controle, pois sabia como lidar com seus robôs. E para manter a tensão e o suspense durante o filme, o caráter e a integridade profissional e moral de Nathan é questionada a todo instante. Desta forma, é difícil dizer se ele era inocente ou culpado até o desfecho do filme. O que quero dizer é que até depois de passados os créditos, permanece a dúvida quanto à conduta de Nathan. Pessoalmente, o considero “vilão”, mas Caleb tem sua parcela de culpa ao agir sem profissionalismo de uma forma diferente de seu chefe, uma vez que ele conhecia superficialmente a forma como o sistema de Ava foi codificado, não prevendo que ela o trairia (menino ingênuo). Tal traição também se deve ao perfil psicológico e físico de Ava, criado intencionalmente por Nathan para fazer Caleb criar laços sentimentais com o androide. No entanto, quando o fez, Nathan não esperava que o jovem teria a capacidade de se envolver tanto com ela e de fato libertá-la. A dúvida permanece se se Caleb tivesse conseguido ficar com Ava, teria cuidado dela e a tratado como uma humana ao longo do tempo, diferentemente de Nathan. 79801.jpg Além disso, as vantagens e desvantagens de se desenvolver inteligência artificial são obviamente discutidas no filme, bem como já havia sido em outras obras como “Eu, Robô”, “O Exterminador do Futuro”, “A.I. - Inteligência Artificial”, “Matrix”, “Blade Runner”, entre outras. “Ex Machina” nos adverte de forma sutil e inovadora, até onde a obsessão por progresso que a espécie humana possui pode nos levar. É fato que o desenvolvimento de novas tecnologias é um bem necessário às civilizações atuais. No entanto, acredito que por presenciar regressos da espécie humana como poluição, desmatamento, preconceito racial, desigualdade de gêneros, má distribuição de renda, entre outros erros faraônicos que cometemos todos os dias, não consigo enxergar como estaríamos preparados para lidar com as consequências trazidas pela inserção de androides com inteligência artificial em nosso cotidiano. Isso porque temos ciência do que deve ser feito para solucionar os erros citados anteriormente, erros que insistimos em não consertar. Logo, no caso de uma revolta de androides contra seus criadores que sempre é abordada nos filmes, os humanos, essa espécie que parece não ter saído do estágio de Neandertal até o século XXI, algumas possibilidades podem ser especuladas. Algumas delas são a escravização da espécie humana ou a erradicação da mesma, o que poderia finalmente aliviar o planeta Terra de tanto sofrimento. Sem querer diminuir a minha própria espécie, mas já diminuindo, é claro e inevitável que em uma questão de anos, máquinas substituirão quase todas as tarefas que executamos hoje, inclusive aquelas que só outro indivíduo de mesma espécie pode executar. OscarIsaacExMachina.jpg A gravidade da situação retratada no cinema se dá no fato de que tais criações têm a capacidade de se tornarem humanas ao assimilarem emoções e as executarem de maneira mais ordenada em relação à razão do que nós mesmos. Talvez o grande perigo esteja na possibilidade de criarmos humanos mais humanos, uma vez que a humanidade não é tão bonita quanto aparenta ser. Embora no Japão já existam protótipos extremamente realistas de androides executando tarefas cada vez mais complexas, ainda não é o que se vê na ficção do cinema. Criar um ser inteligente e com personalidade própria pode ser perigoso por várias razões, e a mais grave delas a meu ver, é desconhecer o futuro do planeta: se será melhor ou pior do que o que fizemos a ele desde que o primeiro hominídeo começou a caminhar pela superfície terrestre. Justamente por temer esse futuro tão próximo, evito essa temática em filmes, em que o futuro já chegou e a ambientação é sempre um planeta Terra aparentemente prosperando com a difusão de tanta tecnologia eletrônica, seres humanos controlando tudo até que... “Ex Machina”, assistam, tenho certeza de que não se arrependerão. 3043726-poster-p-2-ex-machina-tinder-ad.jpg


Mariana Pelet

Redatora na Obvious. Cinéfila, chocólotra e com ideias na cabeça..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// //Mariana Pelet