Leticia Franco

Médica Veterinária, apaixonada por mitologia, Tolkien, C.S Lewis e Neil Gaiman. Gosto de tomar chá enquanto escuto uma boa conversa.

A sensibilidade presente na obra “O Nome Do Vento”

Patrick Rothfuss nos presenteia com uma obra completa, incrivelmente sensível e poética. O Nome do Vento nos permite adentrar em um mundo mágico, onde virar a página é um deleite para qualquer fã de fantasia.


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Livros de fantasia nos proporcionam uma imersão em um mundo diferente do qual vivemos. Nós leitores assíduos, lemos as histórias, vibramos com os personagens e somos capazes de vivenciar a magia apresentada pelo autor.

Patrick Rothfuss é um ser humano como eu, como você. Apaixonado pelo universo fantástico, sempre se viu cercado por livros. Sonhava com dragões e tudo de mais incrível que esse universo nos proporciona.

Na dedicatória do livro, escreveu: Para minha mãe, que me ensinou a amar os livros e me abriu as portas de Nárnia, Pern e a Terra-Média.

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O Nome do Vento é o primeiro livro da trilogia A Crônica do Matador do Rei, dentre tantos livros fantásticos que saíram nos últimos tempos, a obra chama a atenção por apresentar diálogos reflexivos, sensibilidade e uma versão diferente de herói com o qual estávamos acostumados.

Em sagas como Harry Potter e O Senhor dos Anéis, nos deparamos com protagonistas que são “acidentalmentes” inclusos em uma aventura. Eles possuem parceiros que os ajudam na jornada do herói. Em O Nome do Vento, somos apresentados ao protagonista Kvothe, membro de uma trupe, ele embarca na aventura sozinho. Destemido e dotado apenas de sua esperteza, é o responsável pela sua própria história.

Patrick Rothfuss utilizou elementos que cativaram o leitor, existe romance na obra, mas ele também apresenta outro tipo de amor. O amor que o músico tem pelo seu instrumento.

Kvothe é músico, exímio tocador de alaúde, cuida do seu instrumento como um pai cuida de seu filho. Quando começa a tocar, parece que conseguimos escutar as notas tocadas por ele, é como se estivéssemos ali, na primeira fileira, vibrando e aplaudindo o som acalentador de seu instrumento. Observe um trecho do livro, no qual Kvothe mostra sua dedicação à música:

A música é uma amante orgulhosa e temperamental. Recebendo o tempo e a atenção que merece, ela é sua. Desdenhada, chega o dia em que você chama e ela não responde. Por isso comecei a dormir menos, para lhe dar o tempo de que ela precisava.

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Toda a narrativa é repleta de diálogos que nos fazem refletir sobre o comportamento humano. É possível perceber o cuidado do autor em nos transmitir muito mais que uma leitura divertida, mas também algo que reforçasse valores.

Nos trechos a seguir, ele cita a perda da infância e a generosidade:

Quase no fim do verão, ouvi acidentalmente uma conversa que me arrancou num tranco de meu estado de abençoada ignorância. Quando crianças, raramente pensamos no futuro. Essa inocência nos deixa livres para nos divertimos como poucos adultos conseguem. O dia em que nos inquietamos com o futuro é aquele em que deixamos a infância para trás.

Por quê? Porque o orgulho é uma coisa estranha, e porque a generosidade merece ser retribuída com generosidade. Mas foi sobretudo por me parecer a coisa certa, e essa é uma razão suficiente.

Vale a pena ler com mais atenção o capítulo Estradas para locais seguros, onde é descrito as portas da mente, uma das melhores passagens do livro, extremamente sensível e real.

Entre tantos fatores interessantes presentes na obra, vale ressaltar a construção dos personagens secundários. Não nos interessamos apenas pela trajetória de Kvothe, mas também queremos acompanhar os passos de Auri, Elodin, Devi, entre tantos outros personagens complexos que o autor nos apresenta.

Grande parte do lirismo presente no livro se concentra na Auri. Sensível e frágil, ela passa tranqüilidade e mistério. Muitos personagens possuem o elemento mistério como chave, como esse é apenas o primeiro livro, ficamos criando teorias a respeito deles, parte que particularmente gosto muito, pois nos mantém conectado a obra mesmo depois de terminá-la.

Outro personagem interessante é Elodin. Considerando ora sábio ora insano, ele é uma das portas de entrada para criação de várias teorias formuladas pelos fãs. Elodin possui diálogos extremamente interessantes. Deixo aqui um trecho que ele cita a mente desperta e a adormecida:

A resposta é que cada um de nós tem duas mentes: a mente desperta e a mente adormecida. Nossa mente é a que pensa, fala e raciocina. Mas a mente adormecida é mais poderosa. Enxerga fundo no cerne das coisas. É a parte de nós que sonha. Ela se lembra de tudo. Dá-nos a intuição. A mente desperta não entende a natureza dos homens. A mente adormecida, sim. Já sabe muitas coisas que a mente desperta não sabe.

O Nome do Vento é apenas o primeiro volume da trilogia A Crônica do Matador do Rei, o segundo volume já foi publicado, intitulado O Temor do Sábio e o terceiro ainda não tem previsão de lançamento, deixando assim, todos os fãs extremamente ansiosos. Vale a pena se aventurar no incrível universo criado por Patrick Rothfuss, muito mais que um livro de fantasia, O Nome do Vento é apenas o pontapé inicial para uma leitura incrivelmente mágica e delicada.


Leticia Franco

Médica Veterinária, apaixonada por mitologia, Tolkien, C.S Lewis e Neil Gaiman. Gosto de tomar chá enquanto escuto uma boa conversa..
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