Leticia Franco

Médica Veterinária, apaixonada por mitologia, Tolkien, C.S Lewis e Neil Gaiman. Gosto de tomar chá enquanto escuto uma boa conversa.

Edward Mãos de Tesoura, uma autobiografia

Aparência estranha, cabelo bagunçado, jovem assustado inserido em um lugar em que aparentemente não se encaixava... Edward é a imagem do próprio cineasta Tim Burton.


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Existem filmes que nos marcam, que ficam ali, presos na memória. Edward Mãos de Tesoura tem esse poder sobre mim. A primeira vez que assisti o filme foi na infância, imersa na década de 90. A Sessão da Tarde tinha hora marcada no meu cronograma infantil, assim conheci Edward e assim me apaixonei, eu podia sentir a tristeza dele naqueles olhos tristes, nas mãos que aparentemente nada poderiam tocar sem ferir. Era uma mistura de empatia, medo e encantamento.

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Os anos foram passando e eu continuava vendo aqueles filmes divertidos e macabros ao mesmo tempo, até que um dia decidi olhar o diretor daquelas obras que me davam medo, mas que ao mesmo tempo exerciam um magnetismo sobre mim. Todos eles, dirigidos pelo cara de cabelo bagunçado, uma figura excêntrica que parecia ter saído de um de seus filmes. "Poxa, ele é real", pensei.

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Acho muito difícil não fazer uma associação de Tim Burton com sua obra Edward Mãos de Tesoura, o filme é de 1990 e foi o quarto longa do diretor. O jornalista Graham Fuller entrevistou o cineasta na época da produção do filme e obteve informações interessantes sobre a obra e Burton.

De onde veio a ideia de "Edward Mãos de Tesoura"?

Foi algo muito puro (...). Sempre adorei os contos de fadas como "Chapeuzinho Vermelho" e "João e Maria", que contam ideias incríveis, mas não possuem nenhuma ligação psicológica comigo. Certo dia, tive uma conversa que fez muito sentido. Disseram-me: "imagine como Chapeuzinho Vermelho foi recebida na época em que foi escrita, provavelmente fazia todo sentido." O que amo nos contos de fadas é que algo bem simples e emocional é mostrado em uma escala simbólica bem maior.

E como você traduziu esse sentimento em seu filme?

É a inabilidade de se comunicar, de tocar, estar em desacordo consigo mesmo. Como você se vê o oposto do que é realmente. O que me interessou foi a ideia de tentar narrar um conto de fadas no sentido clássico, mas fazendo que parecesse como um exame daqueles temas.

O filme tem alguma mensagem sobre o mundo no qual Edward surge?

Acho que sim, pois muito dele é baseado em memórias, não traduções literais sobre o que é crescer em certo lugar. E é um lugar fascinante, um subúrbio. E que foi muito importante para mim. É um lugar engraçado, muito estranho e bizarro, mas não totalmente negativo. Por isso, no filme, espero que esse cenário tenha sido apresentado de um jeito que seja extremo e meio louco, mas não julgando nem rindo das pessoas. Este é o filme de que mais me sinto próximo, e eu só queria que as pessoas vissem as imagens; espero que as pessoas possam tirar suas próprias conclusões sobre elas. É legal fazer outro filme que, finalmente, parece um pouco aberto a interpretações.

Burton cresceu cercado de brinquedos de monstros em uma casa de subúrbio, na Califórnia. Apaixonado pelos filmes de Vicent Price e as obras de Edgar Allan Poe, era um jovem que nunca se encaixava, sempre esquisito e solitário.

tim-burton-visual-analysis-23.jpg Subúrbio representado no filme "Edward Mãos de Tesoura". Casas seguindo um padrão de formato e cor que contrastam com a aparência de Edward, assim como foi com Burton.

vicent price.jpg Vicent Price interpretou o inventor que morreu de ataque cardíaco antes de colocar as mãos de Edward.

Mas afinal, por que tesouras? Tim Burton responde que houve um longo período no qual ele não conseguia se conectar com ninguém ou ter algum tipo de relação. Todos passam por períodos assim, quando há uma sensação de que você não pode se conectar, não pode tocar.

Apesar de Burton não gostar que essa obra seja analisada como autobiográfica, pois diz que gostaria que o filme fosse aberto para maiores interpretações, é impossível não associar a imagem de Edward com a do cineasta.

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*As entrevistas contidas nesse texto foram retiradas do livro: O Estranho Mundo de Tim Burton, de Paul A. Woods.


Leticia Franco

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