Leticia Franco

Médica Veterinária, apaixonada por mitologia, Tolkien, C.S Lewis e Neil Gaiman. Gosto de tomar chá enquanto escuto uma boa conversa.

Konstantin Dmítrich Liévin - o amor submisso

Das inseguranças do amor que acabam transformando a calmaria em ventania.


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Amor: Palavra curta, bonita, eleva e leva; quem dera sempre trouxesse felicidade para aqueles já se sentiram transbordar por esse sentimento. Anna Kariênina foi o meu primeiro contato com a literatura russa, contato esse que me fez imersa durante um ano e meio em suas palavras, nas ruas de São Petersburgo, no frio de Moscou, no olhar dos mujiques... Ah, o final da leitura me fez pensar que aqueles personagens de alguma forma faziam parte da minha vida. Eu me vi nas incertezas de Anna, no orgulho de Aleksiei, no coração acelerado de Kitty, mas acima de tudo, na timidez e insegurança do apaixonado Konstantin Dmítrich Liévin.

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Liévin não tem muito jeito com as mulheres, é um homem do campo que possui dificuldades em se comunicar com a elite russa pelo seu jeito reservado, o que o faz vencer sua timidez é seu amor por Kitty, a jovem princesa russa que fazia o coração de Liévin disparar.

Eu gostava disso, desse jeito meio torto e desajeitado de Liévin, mas com o passar do livro, fui atentando para um outro olhar do romance que acontecia. Liévin colocava Kittty em um pedestal, como se ele devesse ser grato por ela se apaixonar por um cara como ele, como se houvesse alguma inferioridade pessoal, como se ele não fosse digno de tal amor. Veja bem, não digo financeiramente, já que os dois possuíam muitos bens, mas Liévin se achava inferior a Kitty e por isso era submisso aos desejos da princesa.

Inicialmente eu considerava as passagens abaixo, trechos daquela paixão que faz a alma se transformar em poesia, mas aos poucos, conforme o romance acontecia, vi a insegurança de Liévin se elevar cada vez mais.

"O lugar onde estava Kitty, lhe parecia um santuário inacessível, e houve um momento em que Liévin quase fugiu, tamanho era o seu pavor. Teve de fazer um esforço contra si mesmo e convencer-se de que, em torno dela, havia todo tipo de gente e que também ele poderia ir até lá, para andar de patins. Desceu, evitando por longo tempo olhar para Kitty, como se evita olhar para o sol, mas a via, como se vê o sol sem olhar".

"Stiepan Arcáditch sorriu. Conhecia muito bem esse sentimento de Liévin, sabia que, para ele, todas as moças do mundo se distribuíam em dois tipos: um tipo era o de todas as moças do mundo, exceto ela, e essas moças tinham todas as fraquezas humanas, eram moças muito comuns; o outro tipo era formado só por ela, que não tinha nenhuma fraqueza e se colocava acima de todos os outros seres humanos".

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A patogenia dos românticos é delicada, parece sublime no início, enche os corações de esperanças e poesia. Mas depois vem a insegurança, o medo, a baixa autoestima. Não são todos os casos, é claro, mas uma observação minuciosa deve ser feita para não menosprezarmos o nosso próprio amor.

Liévin é personagem do consagrado romance russo Anna Kariênina, de Tolstói. Recomendo fortemente a leitura por ser uma obra que trata de diversas facetas do ser humano.

*As imagens desse artigo são de cenas pertencentes à adaptação cinematográfica Anna Karenina, de 2012.


Leticia Franco

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