chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

A operadora fez eu matar a minha vó

A difícil tarefa de se despedir através de banalidades contemporâneas.


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Não conheci uma das minhas avós. Aliás, até conheci, mas ela veio a falecer quando eu tinha uns 2 anos e, por isso, não me lembro de nada dela. Apesar de passados mais de 20 anos da partida da minha avó, ela ainda sobrevivia, até o mês passado.

Tudo aconteceu devido a uma relação conflituosa com a operadora de telefone fixo. Após muita dor de cabeça, cancelei a linha. Estava livre. Tudo parecia bem, até que falei isso para o meu avô. Ele olhou para mim e depois voltou os olhos para o infinito. Depois de um breve suspiro, ele disse que havia adquirido aquela linha para a minha avó, um tempo depois deles terem casado. Foi assim que me tornei um assassino.

Meu avô contou-me que o nosso número foi um dos primeiros da cidade. Naquela época só era possível conseguir uma dessas quando se entrasse em uma enorme fila de espera. Mesmo assim, como minha vó sempre quis uma, meu avô logo tratou de conseguir. Eles foram tão pioneiros que nosso número tinha final “1514”. Essa sequência era tão preciosa que meu avô já havia recebido inúmeras propostas de venda. Mesmo assim, ele não o fez, afinal, era um presente para a sua amada.

Apesar das memórias que os outros ainda têm da minha avó, ela de certa forma ainda sobrevivia através da linha telefônica. Longe de ser somente um recurso tecnológico para facilitar o cotidiano, o “tuuuuu” era a forma dela se manifestar. Essa era uma evocação que conseguia se expressar, mesmo que fosse sempre igual. Essa era a forma dela dizer “Olá, eu estou aqui com vocês” ou “Vai ficar tudo bem” e isso era mais do que suficiente.

Em uma ligação, eu acabei com 39 anos de história. Calei a minha avó para sempre. Eliminei a chance do meu avô de tirar o telefone do gancho para recordar um período muito bonito da vida deles.

Cometi um homicídio e fui fichado como criminoso pela minha consciência. Apesar de eu ter passado uma borracha nessa história escrita a lápis, tenho certeza que as lembranças deixadas em todos ainda resistirão.

Vó, todos dizem que você era muito especial e só tem coisas boas para compartilhar a seu respeito. Seu neto tem muito orgulho de você e tenha a certeza de que, apesar de tudo, sempre a mantive junto a mim, mesmo sem ter podido dizer adeus. Espero poder conseguir o habeas corpus pelas memórias, fotos e histórias que ainda restaram e que farei questão de ecoar ainda nos anos vindouros.

Fica aqui o meu abraço apertado e o meu beijo de despedida.

Saudades.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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