chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Bichices

O universo da testosterona foi construído com base no preconceito. O trabalho para odiar ou aceitar é o mesmo, então quem sabe ficamos com a opção que nos traz algum benefício, só para variar? Livre arbítrio, dedo médio para cima!


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Bichice: (vulg) peculiaridade pejorativa masculina em relação a algo.

No universo masculino, quando é para violar hombridade alheia, a receita é muito simples: basta chamar de bicha. Pronto, pandemônio instaurado. “Bichice” não escapou desse clichê e acabou sendo mais um dos termos do viés ofensivo. Bichice é a nova “frescura” da vez e, por isso, classifiquei em três tipos: paladar, comportamental e musical.

Mais velho do que o homo erectus é a questão do paladar. Faça um teste no seu trabalho: diga que você vai pedir tele-entrega de um xis tudo e convide os seus colegas a participar. Garanto que algum terá alguma observação a respeito do pedido. Um vai pedir sem ervilha, o outro vai dizer que odeia milho, um terceiro vai pedir sem ovo, um quarto não curte presunto e o quinto vai pedir para tirar tanta coisa que seria mais fácil pedir só um pão com carne e queijo. É quase um teste de RH para o chapista. Assim continua, uns não gostam de peixe, outros não comem tomate sem pele, uns odeiam margarina sem sal, outros não podem ver cebola, tem esses que vomitam com quindim, tem aqueles que não comem carne mal-passada, tem eles ali que só bebem água... Aliás, homem que é homem mesmo só bebe cerveja, uísque e vodka. Tequila só com os amigos mais chegados. Coquetéis? Só se for com álcool e sem muitas frutas. Melhor tomar sozinho e em casa. Essa bebida você não conhece, menos ainda o refrigerante diet ou zero. Vai por mim, conheço um que tomou uma piña colada e no outro dia estava lendo Clarice Lispector e Martha Medeiros. Tá amarrado, churros gourmet!

Os comportamentais tem mais a ver com situações em que não nos sentimos confortáveis. Tem os que não gostam de praia por causa da areia. Os que odeiam montanhas e trilhas tem pavor dos mosquitos e da lama. Aqueles que não acampam para não precisar defecar atrás de moitas ou dormir em um delicioso colchão inflável (quando tem). Esses aqui não assistem musicais, principalmente se for Moulin Rouge e Mamma Mia. Filmes só se forem aqueles de ação, com muitas armas, explosões, carrões, drogas e protagonistas musculosos, suados e sujos. Opa, esse último não pode. Isso aí tá mais parecendo o Magic Mike do que Velozes e Furiosos. Ou seriam os dois? Putz, melhor esquecer os filmes de ação também. Esses também não vão à balada alternativa, porque sabe né, a pulseira na entrada recebe uma mandinga braba que faz o seu ânus comichar toda vez que ver um homem dali em diante. Faz terapia? Ih, alerta cor de rosa. Foge, porque não demora muito você estará fazendo esfoliação. A partir daí não tem mais volta! Sai desse corpo, satanás!

A música então, não poderia escapar de ser alvo da bichice. Sabe né, homem que se preze tem que gostar de rock, e de preferência o pesado ainda. Experimenta gostar de música pop para ver. Exorcismo na certa! Joga na fogueira e derrama óleo quente nos ouvidos desses caras, please. Porra, mano, tu curte Lady GaGa? Madonna? Beyoncé? Katy Perry? Justin Bieber? One Direction? Que baitolagem! Ouvi dizer que eles fizeram como a Xuxa e adicionaram o cara lá de baixo no Face. Tinha um amigo meu que só ouvia Led Zeppelin, Mettalica e SOAD. Um dia desses, ele ouviu a música do Frozen e, bróder, no outro dia ele foi procurar um macho para copular. Só Deus na causa!

Intrigantemente, como todos sabem, gostos são coisas que não se discutem e sempre variam. Mesmo assim, quando eles passaram a se caracterizar como bichices, tudo ficou passível de discussões para tentar detonar a masculinidade alheia. Ineficaz, tá?

A verdade é que todos têm essas particularidades, em pequena ou grande quantidade. Não existe pessoa que não tenha. Bichices são démodé.

Merda, melhor parar por aqui, porque esse texto já virou uma bichice.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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