chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Falta de consideração

Aquele momento que você tem vontade de marcar os cinco dedos na cara dos seus amigos.


falta de consideraçao.jpg

Esqueça a ansiedade, depressão e estresse. O problema que assola a humanidade atual é a falta de consideração. Especificamente falando, a falta de consideração aplicada às amizades. Não sei se isso é um reflexo da nossa realidade, ou é simplesmente por eu ter crescido e na vida adulta temos que aprender a lidar com essa situação. É clichê, está cada vez mais difícil se colocar no lugar do outro. Se jogássemos tarô, essas 5 cartas apareceriam para explanar essa condição atual: namorandos, nulos, egocêntricos, tratantes e cuidadosos.

O jeito mais prático de perceber a falta de consideração das pessoas é o namoro. Ele por vezes parece ser vampiresco, onde o namoro passa a ser objetivo de vida – o sangue da sobrevivência diária. Basta o indivíduo encontrar sua metade da laranja que os amigos são atirados para escanteio e tornam-se, magicamente, invisíveis. A relação do namoro x amizade, traduzida em números, fica 95% x 5% respectivamente. Isso quando o percentual não é maior para o primeiro item. Quem ouvia suas lamúrias, te dava conselhos e te levava para casa quando você bebia demais, passa a receber uma enxurrada de desculpas por parte do namorando para não poder se encontrar com os amigos. Também é notório que o fardo acaba sobrando para o então “cônjuge” como resposta definitiva, o vilão da fraternidade. Os amigos, então, são tratados como copos de plástico. São usados enquanto convêm, mas depois que conseguem uma companhia, viram descartáveis. Simples assim. Mas antes, quando você precisava, eles sempre estavam lá de prontidão para vocês, e agora, com uma mínima mudança, quando eles também precisam de vocês, estão ocupados. Espera para ver para quem eles virão correndo quando acabar a relação. Aí os amigos são úteis novamente. Os namorandos passaram a ser gêmeos siameses e a cirurgia de separação é muito cara.

Não só os relacionamentos são os protagonistas da falta de consideração, também temos os nulos. Estes podem ser uma consequência dos namorandos, ou então passaram a atribuir essa característica à sua personalidade. Nulos são aqueles que não dão resposta. Você envia e-mail, um Whats, escreve no Face, manda SMS, liga, telegrama, mayday, código Morse, libras e até pedrinha na janela. Nada. Seja porque eles têm a cara de pau de dizer a agenda deles está irremediavelmente ocupada, seja por pura preguiça mesmo. Engraçado como dar retorno virou desimportante, para não dizer inútil. Para os nulos, tudo pode ser para depois. O problema é que esse depois nunca chega. Tempo e dar satisfação são artigos de grife. Ah, mas lá vem aquele seu amigo de novo. Ah, mas também pode ser que ele ainda não tenha se tocado de que você está namorando. Como ele ainda não entendeu que tudo mudou agora? Ah, mas fica chato convidar ele para sair porque ele é solteiro, e três é número ímpar. Ah, mas não dá para ficar solteiro para sempre. Ah, mas arranja uma namorada também que daí vai ficar bem mais fácil e mais divertido sair...

Ainda temos os egocêntricos. Apesar de ser uma palavra bem forte, e, óbvio, ninguém se encaixa nesse perfil, essa característica é bem comum hoje em dia, mas as próprias pessoas não notam mais. Parece que já passamos a era em que parecer era feio e o importante era ser. Agora, o ser ficou supervalorizado, a era do narcisismo. Estes egocêntricos, com sua estupenda habilidade de mudar o foco do assunto para, novamente, serem eles o centro do universo. Eles te ligam porque precisam conversar e você vai. Começa o assunto, e com ele vem os pronomes: eu, meu, minha. Elimine: teu, tuas, seus, suas, você. Quando conseguir uma brecha para falar da sua situação, ela se resumirá a, quando muito, 3 minutos. Raramente essas pessoas perguntarão: “E você, como está?”.

Os tratantes são aqueles que parecem que tem prazer em te deixar na mão. Marcam algo com você e, quando chega na última hora, ocorre um “imprevisto”. Estes personagens também são famosos pela expressão “sim, vamos marcar”. Esse “vamos marcar” que nunca ocorre, ou pior, quando você resolve tomar a iniciativa e marca algo, eles não respondem nada (olha um traço dos nulos aí). O eterno limbo dos convites.

Os cuidadosos, objetivamente, são os seres pedintes. Você faz um favor de emprestar algo seu, que você conquistou com tanto esforço ou que é bem apegado, e eles te devolvem estragado. Na hora do empréstimo eles autodenominam-se ultracuidadosos com os seus próprios pertences, imaginem então com as coisas dos outros? É, imaginem só, se o que você emprestou voltou de alguma forma com defeito, como será que são as coisas deles então? Os cuidadosos também se caracterizam por ficar alugando o item emprestado por um loooongo tempo, quase uma quarentena, sabe? São tão cuidadosos que até se esquecem de devolver. Ah, mas se o dono realmente precisar vai vir me pedir. #sqn.

A relação de amizade é recíproca, não uma via de mão única. Todos ficam carentes e merecem atenção. Os nossos amigos são nossos terapeutas diários e, além de não cobrarem, eles estão disponíveis 24/7.

Escrevendo o texto, percebi que a falta de consideração é bem matemática. Uma matemática bem simples, até. Proporção. Quando um novo amor chegar, entregue-se a ele na mesma proporção da amizade. O amor é mais fácil de acabar e, enquanto não houver equilíbrio, algo vai desandar. Quando o amigo te pedir atenção de alguma forma, responda. Mesmo que você não seja imediatamente, mas, de preferência, ainda no mesmo dia. Um dia a sua resposta pode também não vir mais. Quando seu amigo falar, também seja ouvinte. Todos precisam falar, mas também precisam escutar. Quando você disser “vamos marcar”, marque. Sempre é possível dar um tempo para os amigos e, se ele fizer um convite, não o deixe no vácuo, retribua ou remarque com data específica. Quando você pedir algo emprestado, devolva. De preferência, assim que não estiver mais utilizando, e ainda por cima intacto, da mesma forma como você recebeu o item em questão. Se estragou, compre outro se o item for substituível. Caso não seja possível, compense o seu amigo de outra forma cabível.

Vale relembrar que isso se manifesta nas nossas relações pessoais, ou seja, com pessoas que gostamos. Se já é assim com quem temos algum tipo de apreço, imaginem, agora, como isso ocorre com um desconhecido?

Ninguém é perfeito, mas é bom olhar à sua volta para perceber que você não é nada sozinho com seu umbigo e sim, você precisa ter mais consideração com os seus amigos.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
Saiba como escrever na obvious.
version 18/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Renan Berlitz