chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Já chegou o café?

O café que faz a gente questionar escolhas.


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A jornada de trabalho iniciava às 8h e terminava às 18h. Não era maçante nem nada, apenas incrivelmente tediosa. Já acordava com vontade de ir novamente para cama. O seu despertador tocava uma hora antes do horário limite só para ir se acostumando a ter que, novamente, iniciar a rotina de trabalho. O salário não era decente, trabalhava só por necessidade, nada mais. A “necessidade” é objetivamente traduzida pelas (malditas) contas.

Sua felicidade era a hora do café.

Quando o café chegava, era como se o carteiro viesse finalmente trazer aquela tão aguardada entrega. Era quase um momento de iluminação. Não era só pelo fato de despertá-lo um pouco do sono, mas sim por ser sua fonte diária de possibilidades. A tia da cozinha preparava-o de um jeito longe de ser meticuloso e pontual. Às vezes deixava a água ferver, às vezes colocava muito açúcar, às vezes esquecia de limpar a garrafa térmica, às vezes o trazia perto do meio-dia, às vezes o pó estava vencido, às vezes ela não colocava os copos, às vezes ela misturava com o chá, às vezes até estava bom. Este café era como as balas surpresa do Harry Potter: ora poderia ser de morango, ora sabor cera de ouvido.

Esse era o seu momento diário. Enquanto sorvia aquele mágico líquido negro, parava um momento de trabalhar. Dava uma pausa, como se fosse um vídeo do Youtube. Por um momento não tinha um emprego chato, contas para pagar, um chefe otário para aturar. Por um momento era dono do seu tempo, da sua vida, das suas escolhas. O café fazia o dia mais horrível, cinza e chuvoso, em um momento de apreciação à vida que percorria entre suas papilas gustativas.

Olhava à sua volta e via as pessoas desempenhando as suas funções, algumas com uma certa alegria, outras nem tanto. Como podiam as pessoas estarem contentes com essa empresa que tanto lhe causava asco? Como podiam trabalhar mesmo odiando o que fazem? Como? Como? Já estava cansado de ter que engolir a resposta “por necessidade”. E se virasse monge?

Assim passava mais um dia e outro já iniciava. Já chegou o café?


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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