chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Papéis

Só tem lugar para uma pessoa passar por esse tapete vermelho.


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Tive um período bem significativo de desemprego. Nunca havia ficado tanto tempo nessa situação, mas, ao mesmo tempo que isso foi crítico monetariamente, tirei proveito para assimilar novos aprendizados. Neste período tive a oportunidade de fazer uma autoavaliação de vários quesitos da minha vida – coisa que a gente geralmente deixa para depois, isso quando faz. Sim, é um pouco chato, porque temos que cavar, cavar cada vez mais fundo, e isso cansa. Pior do que cansar, é ter que confrontar aquilo que se encontra pelo caminho. Não é fácil, mas é necessário.

Uma das coisas que descobri neste caminho de terra úmida foi que eu estava sendo um coadjuvante da minha própria vida. Isso quer dizer que, em geral, eu ia no embalo de decisões de outras pessoas e acabava seguindo-as. A gente sempre recebe propostas de participação de sonhos, programas e projetos na vida de outras pessoas. Embarquei em 90% deles, mesmo não sendo a minha praia, para dar uma chance para o acaso. Vai que eu goste, né? Não, eu geralmente não gostava e eu tinha consciência de que não ia gostar já no início (com raras exceções, óbvio). Ia mais pela parceria do que por vontade mesmo. Eu me preocupava mais com a consequência da minha negação do que propriamente da minha satisfação em fazer parte. É tolo, mas eu fazia isso. Nada do que você já não imagine, mas acabava em frustração. Frustração por não ter dito logo um "não", frustração por não ter dado certo, frustração por deixar as pessoas chateadas/magoadas comigo. E quem acabava levando a pior nisso? Eu, claro.

Nesse tempo também percebi que ainda mais preocupante do que ser coadjuvante da minha própria vida é ser um figurante nela. Sempre lembre daquela cena de lanchonete em que os dois protagonistas estão conversando e lá no fundo, bem no fundo mesmo, tem aquela pessoa de costas numa mesinha que só mexe a boca. Isso, esse é o figurante. Ele só está lá para parecer que o lugar está frequentado e que é uma lanchonete "real". Ele é o mesmo que a árvore no cenário de floresta. Não tem finalidade nenhuma, só para constar que é, de fato, uma floresta. Então, prazer, esse era eu. Era o escritor, diretor, protagonista, antagonista e, mesmo assim, outro acabava levando os louros. Cansei de ser secundário e terciário.

Junto com esses dois papéis, eu também reparei que grande parte das coisas que eu fazia era acompanhado de alguém. Nunca fiz uma viagem sozinho, nunca fui a uma festa sozinho, eu nunca fui morar sozinho e etc. Essa individualidade me fazia muita falta e eu não tinha me dado conta. Não estar usufruindo do júbilo da minha própria companhia me fez atingir um cano de esgoto.

Estando assim, com água fétida até a cintura, eu tinha duas opções: continuar cavando e me afogar na m**** ou sair do buraco, tomar um banho, e consertar o cano. Fiquei com a segunda.

Eu sei que isso é egoísta, mas eu também sei que tem muita gente que passa por isso e acha que não tem conserto. A vida é nossa no final das contas, caramba! Somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade. Vai exigir um esforço e alguns banhos. O cheiro vai ficar por um tempo, mas ele passa, pode ter certeza. Ainda assim vai ter gente que vai torcer o nariz como se persistisse algo pútrido no ar. Sabe do que mais? Tem sim, e é essa pessoa do nariz torcido. Isso funciona perfeitamente como peneira. Os verdadeiros e sensatos passarão, ficando ainda mais nobres. Os demais ficarão, apenas pedrinhas. Não perca tempo esmagando e forçando-as a passar. Apenas jogue no lixo. Não vale a pena o esforço. Foque em coisas mais produtivas e peneire o que ainda precisar.

Cabe a nós, então, não deixar que o George Clooney ou a Sandra Bullock ganhem o Oscar de melhor ator/atriz no filme "A vida de (insira seu nome aqui)". Bora pensar no discurso?


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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