chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Surpresa!

Alguém também é importante.


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Alguém foi convidado para a festa de aniversário surpresa de uma amiga. Alguém também foi um dos encarregados de auxiliar na decoração do apartamento dela, já que os outros não poderiam. Os demais convidados começaram a aparecer e Alguém conhecia todos basicamente só de vista. Alguém começou a sentir-se deslocado. Aqueles os quais chegou a trocar algumas palavras acabou sendo apenas trivialidades, como o clima, por exemplo. Entretanto, achou importante classificar mentalmente os convidados pelas suas profissões. 8 convidados: uma produtora de moda/modelo, um casal de pais bocós com seu filho de um ano, uma dentista, um gerente de banco (noivo da dentista), uma relações públicas, uma concursada pública e Alguém.

Enquanto Alguém enchia os balões, a produtora de moda estava contando da sua cansativa sessão de fotos. O ponto alto da conversa foi o momento em que ela começou a falar sobre uma maquiadora. Segundo a produtora, apesar de saber que existia "esse tipo de gente", como a maquiadora, ela nunca tinha conhecido pessoalmente. Ela disse que o maquiador era um homem, mas falava tudo no feminino. O pai do casal bocó então soltou um sonoro "Como assim? Não entendi". Vendo o momento estranho que tinha se formado na sala, Alguém resolveu dar uma ajuda. Explicou que a maquiadora poderia ser uma transex. O pai do casal bocó permaneceu como uma cara ponto de interrogação e Alguém continuou a explicação. Disse que um transex é uma pessoa que, diferente do seu gênero de nascimento, se identifica como o oposto. No caso, apesar de ser um homem, ela se considerava uma mulher, portanto se vestia como uma e sempre se autodenominava no feminino por isso. Silêncio mórbido e rostos botulínicos. A produtora então disse "Isso, isso". Aí, o pai do casal bocó soltou um "Que doideira isso! Estranho!", e assim o assunto cessou e encaminhou-se para outra amenidade qualquer.

Após a finalização da decoração e organização da mesa de jantar, era hora de ligar para o buffet. Ninguém tinha o bendito número. Alguém sinalizou que sabia o mesmo, porém como o final dele era de números parecidos, 3633 ou 3366 ou 6336..., era melhor confirmar. Assim, escapou um "Acho que sou meio disléxico". Silêncio mórbido e rostos botulínicos. O casal de pais bocós usou a retaguarda conveniente: "Filho, foi tu que peidou? Quem peidou? Foi ele, foi eeeele sim". Imagino que agora você saiba exatamente como ler esse último trecho de aspas como pais bocós. Dez minutos depois do ocorrido, a dentista chamou Alguém para um canto um pouco mais reservado e o questionou sobre o disléxico. A dentista terminou a conversa dizendo "Eu tenho isso! Achei que era meio bobagem e nem sabia que isso tinha nome específico".

Um tempo depois, foram informados da chegada da aniversariante. Chegou, gritaram, cantaram parabéns, trouxeram o champanhe com o foguinho na ponta, estouraram o cano de serpentina. Tudo seguiu normalmente, até chegar a vez do gerente do banco fazer a sua contribuição.

- Aeee, agora tu é balzaca!

- Ah, já tinha ouvido isso antes. Da onde vem isso mesmo? – questionou a aniversariante.

- Ah, eu já ouvi isso várias vezes quando as mulheres fazem 30. É isso, 30 – finalizou o gerente.

Silêncio mórbido e rostos botulínicos. Algum dos outros convidados trocou de assunto e a festa seguiu. A partir daí começou a segregação rotineira dos eventos sociais, homens para um lado e mulheres de outro. Apesar de ter tédio dessa parte, Alguém seguiu para a ala masculina. O tédio de Alguém se dava porque quase sempre no grupo testosterona os assuntos giram em torno de apenas três pautas: bebida alcoólica, futebol e mulher - e dessa vez não havia sido diferente. Nessas horas, Alguém tentava fazer cara de interessado, mas sinceramente não sabia se ela convencia. Quando estava entediado, Alguem não costumava participar ativamente da roda. Em geral, ficava na posição de passivo monossilábico, que você deve conhecer como aquela pessoa que fala: "humm, é, legal, aham..."

No meio do "muito" interessante debate sobre a beleza da Luiza Brunet apesar de sua idade, o ouvido de Alguém captou a aniversariante perguntando novamente sobre a questão do balzaquiana, desta vez para a dentista, que balançou a cabeça com um não. O nível de marasmo de Alguém estava tão grande naquele momento que acabou não se equiparando ao das boas maneiras. Interrompeu os comentários dos machos com a explicação sobre o tal do Balzac. Silêncio mórbido e rostos botulínicos. Alguém quis explodir em mil pedacinhos como aquela serpentina. A amiga aniversariante emendou "Nossa, que interessante! Finalmente alguém me explicou o que isso significa". Algumas horas depois, a festa acabou.

Alguém não era linguista, repórter e tampouco o sabe-tudo do ano. Alguém era só mais um desempregado, e o único dos convidados.

Se você chegou até aqui, quero que você não se menospreze. Ninguém é mais do que você pela sua falta de emprego, e menos ainda porque tem uma profissão mais "descolada" ou "renomada". Você pode ser tão, ou até melhor, do que dentistas, gerentes de banco, produtoras de moda, relações públicas ou concursados públicos. Aliás, você não é o seu trabalho. Não é ele que te define. Nomenclaturas profissionais são supervalorizadas. A vida real é feita de trabalhadores e não de empregos cintilantes do LinkedIn. Você é muito mais do que isso.

Quem sabe da próxima vez que você se apresentar, invés de começar pelo seu trabalho, você começa pela sua personalidade, hobbies e o que te deixa feliz? Vamos fazer esse exercício juntos?


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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