chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

27

Qual é a sua magia?


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Desde pequeno, sempre fui fascinado por mágica. Não exatamente daquelas de circo ou de programas de televisão. Refiro-me, mais precisamente, àquelas em que é possível transformar uma pessoa em um sapo, arrumar o quarto sem esforço, voar. Digamos que seria mais a parte metafísica do negócio. Quando assisti pela primeira vez o Harry Potter, minha cabeça explodiu. Era exatamente aquele tipo de magia que sempre gostei e que não era muito fácil de ser encontrada por aí.

Como eu sempre fui atraído por esse mundo do desconhecido, eu achava que alguma mágica ocorreria quando eu atingisse a idade correspondente ao dia do meu aniversário. Completo primaveras no dia 27, então, lá no auge dos meus 7 e poucos anos, tinha essa ideia de que algo surpreendente ocorreria. Cheguei aos 27 no ano passado, mas meus pais não vieram me acordar dizendo: “Você é um bruxo, Renan”.

À medida que ia se aproximando o meu aniversário, eu comecei a lembrar dessa minha ânsia por completar essa idade, e de como era se sentir com 7 e poucos. Desde pequeno, era comum dizerem que a minha imaginação era muito fértil, mas não, nunca tive amigo imaginário. Não sei explicar ao certo, mas acredito que boa parte dessas fantasias eram uma vontade minha do mundo não ser somente como a gente via e vivia todos os dias. O Renan de 7 era um sonhador. O Renan de 7 era um otimista. O Renan de 7 era, acima de tudo, um entusiasta das magias da vida.

Quando eu comecei a tomar gosto pela escrita eu já era mais velho, e essa ideia dos 27 era cada vez mais recorrente. Não propriamente por completar esses dígitos, mas sim de ter que admitir uma realidade que já não me pertencia mais. Não sei o momento exato que isso acontece, porém em algum momento todos nós acabamos perdendo a nossa essência, a nossa inocência. Eu tenho convicção de que essa é a parte que mais me doía. Se eu entrasse em um buraco de minhoca, como eu contaria para o meu eu de 7 que a vida aos 27 não teve nada daquilo que por anos eu desejei? Como eu contaria para aquele Renan que quase tudo que ele queria que acontecesse não ocorreu? E todas aquelas profissões que ele achava o máximo, não foram, nem de longe, àquelas que ele acabou exercendo? Tenho certeza de que eu soaria como aquelas tias que só te dão roupas, quando se espera um brinquedo.

Apesar de todo esse choque de realidade entre essas minhas duas versões, é preciso lembrar das demais transformações não esperadas que também ocorreram. Dos 7 aos 27, é praticamente uma vida. Zilhões de mudanças físicas, psicológicas e ideológicas. Como ouvi recentemente, vamos do Calypso ao colapso. Assim, num estalar de dedos.

Wingardium leviosa à parte, eu acredito que a nossa fonte inesgotável de magia é o amadurecimento. Vamos passar por maus bocados durante um tempo, mas depois vai tudo ficar bem. Quando completarmos nosso último ano na Hogwarts da vida, saberemos que não foi tão difícil quanto achávamos. Já estaremos tão maduros que nem será mais preciso verbalizar feitiços de proteção, pois eles já estarão constantemente ativos no talismã da resiliência. Não precisaremos estudar poções de cura, pois já saberemos as mesmas de cor no encanto das nossas camas. Dispensaremos grande parte das bruxarias de ataque, pois saberemos que o tempo trará arrependimentos e promoverá sensatez a todos.

Sim, Renan de 7 e poucos, quando você chegar aos 27, vai acontecer algo mágico. Você vai adquirir um poder tão grande que talvez nem perceba. Inúmeras possibilidade serão conjuradas. Você poderá mudar sua realidade, talvez não da forma como esperava, mas garanto que será uma até mais eficiente. Você será o maior bruxo de todos os tempos de você mesmo.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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