chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

As cidades de Everton

A grama dessa cidade não é verde não.


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Everton vinha de uma cidade pequena, nem trinta mil habitantes. Morou nesta cidade desde que nasceu e acostumou-se a ter opções ínfimas de lazer. Quando possível, ia com algum amigo detentor de um carro, para a capital, para a cidade grande, divertir-se em uma balada. A capital fazia-lhe bem, pois foi associado à diversão, afinal, sempre que ia para a mesma, era para se divertir. Os anos foram passando, e o que antes fazia Everton sentir-se bem, agora não fazia mais.

Ao completar 23 anos, decidiu que era hora de mudar de vida. Era hora de largar os confortos de se viver com os pais e passou a maturar a ideia de mudar-se, principalmente de cidade. Apesar de gostar do seu emprego em uma das tantas empresas familiares de sua cidadezinha, também viu que era hora de trabalhar na cidade grande. Tudo ia muito bem, até o momento em que se completavam 3 meses de desemprego sem nenhuma perspectiva de crescimento pessoal e profissional. Uma apatia tomava conta dele e, apesar de já ser graduado em uma área que gostava bastante, passou a duvidar se gostaria de seguir nesta profissão até o fim de seus dias. Já não parecia mais que a sua tão sonhada felicidade se realizaria através do, até então, amado ramo de atuação.

As empresas da capital aparentavam não gostar de ter um funcionário interiorano completando suas equipes. Mandava e mandava currículos, sem qualquer tipo de retorno. Quando, efetivamente, mostraram interesse em seu bom currículo e histórico profissional, pulou de alegria. Essa era a hora ele que tanto aguardava. Concluiu que, finalmente, a sorte estava sorrindo para ele e seus desejos estavam se realizando.

Acordava 3 horas antes, tinha que pegar três conduções diferentes e mesmo assim chegava atrasado no mais novo trabalho. Até que não se importava. A empresa da capital não gostou muito da ideia dele chegar sempre atrasado, mas Everton afirmou que fez todos os caminhos possíveis e o mais prático e de melhor assiduidade era esse. A empresa, então, decretou que ele teria dois meses para arranjar alguma acomodação que facilitasse sua locomoção diária. Isso soou como a realização da tão sonhada mudança de cidade.

No primeiro dia, percebeu que na cidade grande o trato das pessoas entre si era diferente. Todos pareciam assustados com a ideia de ter de falar com outro ser humano. Descobriu, novamente, que isso era um traço de mais uma empresa familiar tentando adequar-se à realidade da metrópole. Enquanto passeava por um dos corredores, sentia-se estranho e não sabia explicar o motivo. Será que seria o fato das pessoas não pararem de olhar para ele e dar singelos sorrisos de canto de boca, ou seria sua audição que captava risadas tímidas a respeito do seu jeito de falar? Sentia frio, mesmo sendo verão.

O que estaria acontecendo com ele? Seria a pressão do primeiro dia de trabalho? Seria um pouco de sono que começava a desorientá-lo? Ou seria o fato de ter notado o enorme estresse que teria pela frente?

Essas perguntas pareciam andarilhos em sua mente, pois sabia que todos eram mais felizes quando partiam para a cidade grande. Berço das oportunidades, das alternativas e da diversão. Sempre gostou da agitação e dessa vida de correria. O que estava errado? Eram os seus pensamentos que avassalavam sua estrutura, esmigalhavam o seu cérebro, tiravam o seu chão e faziam com ele percebesse que estava reclamando da vida à toa. Percebeu que sua infelicidade era fruto de algo inatingível. Passou a sentir falta da vida interiorana e sua tranquilidade. Quando o fruto do seu almejo tornou-se palpável, percebeu que não era aquela vida que estava buscando e passou a valorizar o que já tinha. Vislumbrou-se com as promessas de uma vida melhor, como aquelas pessoas desafortunadas de reportagens televisivas. Já não era mais preciso mudar de estado ou país. Não estava preparado para viver na cidade grande, e também já não queria mais. Era feliz e não sabia.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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