chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

F****-se

Um frasco de 1g de palavrões, por gentileza.


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Se alguma vez já teve alguma fila para ser protagonista da Malhação, eu não estava lá. Estou bem longe da infindável lista de qualidades dos mocinhos. Nunca tive uma banda, nunca imergi completamente nas causas sociais, nunca fui popular e, definitivamente, nunca tive um personal trainer com 17 anos. Entretanto, tem duas coisas que confesso que tenho de parecido: costumava tirar notas boas e raríssimamente eu uso palavrões.

Não que eu me preocupe muito em me tornar um ser iluminado e que não precise utilizar esse tipo de linguagem. Eu só não gosto mesmo. Acho desnecessário. Tem inúmeros outros jeitos de dar o mesmo recado utilizando outras palavras e expressões. Muitas vezes, assim é até mais eficaz.

Também acredito que com o passar do tempo, e, à medida que a gente vai adquirindo maturidade, passamos a deixar isso um pouco de lado. Ser adulto é ser ponderado e usar gírias e palavrões é chulo. A gente vai adaptando nosso vocabulário às nossas novas condições e realidade. Na adolescência você pode e costuma usá-los o tempo todo. Fazer o que, é uma das formas de ser descolado. Talvez por isso que eu nunca fui muito popular. Vai saber.

Para mim, utilizar termos inapropriados é como aqueles perfumes de contém 1g. Eu uso com muitíssima moderação para poder ter por mais tempo. É quase aquela caixa grande de Ferrero Rocher que você se limita a comer um por dia para durar 1 mês. À vontade é de comer a caixa inteira de uma vez, mas a gente se controla. Da mesma forma, os palavrões funcionam para mim.

Depois virar adulto, descobri que as palavras têm um poder maior do que costumavam ter. E isso é amplificado em 100 vezes no caso da linguagem vulgar.

Eu tenho plena consciência do poder imensurável de um foda-se. Ele é libertador, orgásmico. Ainda mais para uma pessoa que não costuma fazer uso dele. Assim como você cuida daquele perfume caro e só usa em ocasiões que realmente ele é demandado, ou só para causar mesmo, foi com o meu primeiro foda-se. Não estou dizendo o primeiro da vida, porque esse eu nem lembro e, provavelmente, foi só por dizer. Estou me referindo àquele que você pronunciou com toda a carga de sentimento possível e que verdadeiramente significou tudo que ele representa. Eu me lembro até hoje.

Também lembro nitidamente da expressão da pessoa que recebeu o meu foda-se. Eu achei que ela ia falecer ali mesmo. Ela tinha noção total do meu relacionamento com o chulo. Então, soube claramente que a partir dele não teria mais volta. Se eu atingi esse nível, era porque a coisa já tinha passado da categoria do sério.

Então é isso aí, amigos, usem os palavrões com parcimônia. A proporção é assim, quanto mais você usa, menos significado eles terão. Se você usar com muita frequência, eles perdem totalmente sua carga de efetividade e passam a ser banais. Eles passam a fazer parte do seu cotidiano, sendo que o objetivo é justamente trazer o caos e abalar as estruturas. Só conseguimos algumas mudanças com um pouco de caos. Ele é um mal necessário.

Semana passada eu encontrei uma luminária com os dizeres “foda-se”. Fiquei muito tentado em comprá-la, ainda mais sabendo que as pessoas são mais visuais do que auditivas. Talvez esse seja o momento de eu transcender e fazer um gif com a frase “olha o que eu liguei para você”.

Ah, e se você não gostou desse texto, já sabe.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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