chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Frio

Corações gelados que quase todos se esquecem que continuam sendo corações.


frio.jpg

Normalmente, as pessoas costumam refletir sobre algo quando ocorre algum tipo de situação específica. Para mim, isso nunca chegou a ser um problema porque, por mais que eu não queira, constantemente eu me pego pensando sobre as coisas do cotidiano. Praticamente tudo, na verdade. Assim, um dos termos recorrentes que algumas pessoas acabaram atribuindo à minha pessoa é “frio”. Eu já vinha extraindo essas informações e colocando em uma caixa no meu cérebro para uma averiguação posterior. Eis que chegou o momento de abri-la e colocar em ordem alfabética.

Há alguns anos, eu percebi que a minha personalidade não era muito bem aceita. Digo isso porque eu tenho a “mania” de ser muito sincero. Para um padrão mais generalizado, isso é tido como sinônimo de ser grosso, rude, estúpido. Longe de ser o disseminador do caos, não faço isso porque gosto. Sou assim porque sou assim. É uma das minhas essências e agir diferente disso é não me aceitar. É ter medo de ser eu mesmo.

Em um evento social que participei recentemente, confirmei a percepção que me faz jus. Conversando com pessoas aleatórias, cheguei a um grupo de homens comentando sobre mulheres interesseiras. Um deles, compartilhou que em uma balada, uma destas ditas cujas foi ao encontro dele e acabou levando-a para casa. Mas só isso, não teve final feliz. Dias depois, ele encontrou ela na rua e puxou assunto, a fim de desenvolver melhor aquela possível relação. Algum tempo de conversa depois, ele acabou descobrindo que ela foi esquecida na festa pela sua carona, e ela precisou arranjar um jeito de voltar para casa. Sem ter que pagar, claro. Comentei que era de se abrir o olho, porque eu já tinha conhecido algumas que inclusive iam para as baladas somente com o valor da entrada, porque todo o resto do consumo elas conseguiam utilizando seu poder feminino de persuasão. No fim do assunto, o tal cara confessou que acabou dando carona para ela mais algumas vezes, sem sequer ter conseguido dar um beijo nela. Acabei tendo que dar um chá de realidade dizendo: “Desculpa, amigo, mas essa aí vai te deixar eternamente na friendzone. Se tu quer mais do que isso, foge, senão vai ficar nesse papel de trouxa”. Eu percebi na expressão facial dele que ele concordava com isso, mas preferiu dar uma risadinha e ir buscar uma cerveja sem retorno ao círculo. Boa sorte, seja feliz.

À medida que o tempo passa, cada vez mais me convenço que as pessoas preferem mentiras. É assim mesmo, em geral, mentiras mornas são muito mais socialmente valorizadas do que uma verdade fria. Isso é muito inquietante. Parece-me que a vida é uma eterna chuva de confete. Tudo lindo, divertido e que produz uma foto bonita. Cuidado, às vezes esses confetes cintilantes são cacos de vidro, na verdade. Aceitar verdades passou a ser ofensivo, só que o que não percebemos é que ofensivo mesmo é ficar remoendo angústias maquiadas. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais as blogueiras estéticas estão tão em alta. Palmas para a Alicia Keys.

Tendo consciência de que tudo tem jeitos diferentes de se falar, eu desenvolvi uma técnica. Se você se identificou com o texto até agora, experimente. No meu caso, muitas vezes as palavras são mais rápidas do que o próprio pensamento. Ainda assim, tente acrescentar a palavra “meio”. Sério, ela é revolucionária e universal. Ela é tão poderosa que consegue reduzir cerca de 50% do efeito de negatividade que a pessoa receberá determinada informação. Exemplo: te perguntaram sobre o profissionalismo de um colega. Se você for do tipo supersincero, colocará como “acho ele preguiçoso”. Agora, se você fazer a inserção da palavra, veja só: “acho ele meio preguiçoso”. Assim escrito pode não parecer nada efetivo, mas pode acreditar, na vida real ela é ouro. Você continua achando seu colega um tremendo de um vadio, mas a pessoa que recebe a informação obterá conhecimento dessa característica, não te achará uma pessoa grosseira e você ainda fica satisfeito por não mentir. Até acho que vou patentear.

Tenho que registrar que viver lutando contra o mundo é desgastante. Mesmo assim é válido, porque carecemos seriamente de aceitação. Antes de sair julgando as pessoas pelas cascas do que você vê, tente ir um pouco mais a fundo para ver se a pessoa tem razão. Pode ser que não tenha, porém, invés de se ofender, assimile, quem sabe até agradeça, e veja o que você pode fazer para melhorar, se quiser, claro.

Os frios podem ser amigos muito mais calorosos do que aqueles que te abandonam nas festas. Os frios são mais quentes do que as “mentirinhas do bem”. No fim, talvez o frio seja exatamente aquele que se importa.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Renan Berlitz
Site Meter