chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Malabaristas

O senso de equilíbrio requer muito treino e dedicação que só o semáforo da vida pode nos dar.


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Outro dia passeando pela cidade, vejo um casal de malabaristas executando suas peripécias no intervalo de abrir o semáforo, sob o sol infernal do meio-dia. Após alguma reflexão, concluí que essas pessoas vivem literalmente se equilibrando o tempo todo, seja para conseguir pagar as contas, seja para ter que aturar os olhares de uma sociedade que não os entende e, pior, faz menos questão ainda.

Tive um colega de trabalho que, desde o início, nunca demonstrou muito contentamento com a rotina de trabalhar das 8 às 18h todos os dias. Não que ele não quisesse trabalhar, mas esse formato não conseguia se encaixar com ele. À medida que o tempo passava, o processo de mudança dele foi bem notório. Após passar o período de experiência nessa empresa muito conservadora, ele viu que era hora de um pouco de rebeldia. Passou a deixar as camisas engomadas e calças sociais bem passadas de lado e começou a vir de jeans e camiseta. Depois, começou a deixar o cabelo crescer. Depois fez tatuagem. Depois deixou a barba crescer. Foram passos contidos, mas eu tive a certeza de que seriam permanentes. Também tive a certeza de que ele não ficaria naquele local por muito tempo, não pela quebra das normas corporativas, mas porque percebi que exteriormente ele estava quebrando as próprias barreiras internas. E foi assim que em um belo dia ele não apareceu mais. Após passado algum tempo, descobriram que ele havia se juntado a um grupo de malabaristas andarilhos e estava no Espírito Santo.

Loucos, é assim que todos que fogem da neutralidade do cotidiano são chamados. Não é cabível aos “normais” que existam outras pessoas que não se encaixem nos padrões do sistema. Se você for pensar bem, têm "pirados" por toda parte. Aqui na cidade, por exemplo, tem o louco da moto, que está sempre carregando um saco de alguma coisa e sai gritando coisas aleatórias enquanto está pilotando. Também descobri que tem a velha louca da praça, que está sempre acompanhada do seu guarda-chuva e que sai puxando assuntos desconexos com todo mundo.

Diferente do que muitos possam pensar, eles necessariamente não chegam a causar problemas. Problemas mesmo quem tem são os “normais” achando que todos têm que ser iguais. São os perturbados que dão mais graça para o dia-a-dia. São os insanos que contribuem com um pouco de caos para que o marasmo não se instale de vez. São os doidos os que sabem viver, os destemidos que simplesmente não se importam em ser ou não ser algo. Eles são e fim.

Temos muito o que aprender com quem não sabe ou não utiliza o verbo “adequar”. A comunidade dos “normais” que me perdoe, mas ficar vivendo sempre nessa linha reta já não funciona mais. É exaustivo ficar andando abraçado na cautela de não poder ser nem mais, nem menos. No fim, vamos chegar no mesmo lugar e, por mais que você não queira, essa linha é uma corda bamba. Vamos cair, levantar e recomeçar. Continuaremos assim, sendo malabaristas da nossa sanidade, tendo ou não o equilíbrio que nós próprios queremos.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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