chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Não posso impedir a chuva de cair

O primeiro banho de chuva de um adulto.


Não posso impedir a chuva de cair.jpg

Naquela sexta chuvosa eu resolvi fazer algo diferente. Na verdade, tive vontade de resgatar um daqueles sentimentos infantis que há muito deixamos de lado em função do nosso tão atribulado cotidiano. Era algo tão simples, tão carregado de alegria e permeado pelo inusitado. Também deixamos de fazer isso porque, quando crescemos, começamos a entender que isso pode nos deixar doentes. Principalmente, porque é coisa de criança, então não é permitido para adultos. Esse texto foi gerado a partir dessa sexta em que tomei banho de chuva.

Sim, foi totalmente intencional. Inclusive o guarda-chuva estava na minha mochila. Foi por vontade mesmo. Aquele dia estava com um clima muito convidativo para ter tal atitude. Aquela chuva fraquinha e preguiçosa de uma tarde de meia estação. Em uma sexta, depois de um longo dia de trabalho.

Eu acredito que o destino também conspirou para que eu pudesse tomar esse banho de chuva. Sendo eu um dependente de transporte público, sempre costumo chegar na parada com certa antecedência. Entretanto, naquele dia, ele simplesmente não apareceu, pelo menos não no horário de costume. Além disso, o próximo ônibus só viria na próxima hora. Então, apesar de já estar bem cansado, eu tive mais cansaço de ter que esperar o próximo do que gastar um pouco a sola do sapato. Foi quando eu decidi que aquele seria o dia em que eu realizaria um dos meus desejos de muito tempo: tomar um encantador banho de chuva.

É importante mencionar que naquele dia eu tinha comprado uma pizza para aquelas populares arrecadações de dinheiro que tem por aí. Fui assim mesmo. Com a minha caixinha de papelão de pizza em uma mão, mochila nas costas, casaco na cintura, óculos no rosto. Na chuva.

Apesar da noite já ter dado as suas caras, eu percebia nitidamente os olhares das pessoas que passavam de carro por mim. Todos deveriam imaginar o meu grau de insanidade de estar do jeito que eu estava andando tranquilamente na chuva. Imagina se soubessem que eu estava porque queria. Acho que teriam me internado. Mas tudo bem, minha ação também tinha esse quesito de diversão embutido.

A chuva, por mais torrencial que seja, tem uma aura de calmaria. Olhar para cima e sentir as gotas tocando o seu rosto tem uma carga de alegria e alívio. A água, por si só, já carrega esse espírito de limpar, de lavar a nossa alma. Foi isso também que eu quis.

Quis que a chuva levasse junto consigo todas as frustrações da semana. Quis que ela lavasse as inquietações. Quis que ela limpasse os medos. Quis que ela eliminasse a ansiedade. Quis que ela molhasse todo o estresse. Só quis que ela me encharcasse com a felicidade e positividade do primeiro banho de chuva de uma criança.

Quando cheguei em casa, junto com aquela chuveirada quente, eu vi todas essas nocividades escorrerem pelo ralo. O que restou foi todo o êxtase de um delicioso banho e o abraço de boas-vindas de um bom pijama.

Fui construindo esse texto mentalmente durante a minha caminhada hidroterápica. E assim eu me dei conta mais uma vez de que, assim como eu não posso impedir a chuva de cair, eu também não posso mudar várias outras coisas da minha vida. Mesmo assim, eu tenho o poder de escolher se eu quero me molhar ou abrir o guarda-chuva.

O que você escolhe hoje?


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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