chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

O monstro

Um bichinho exótico que está longe de ser de estimação.


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Convivo diariamente com um monstro. Ele é pior do que aqueles que nos amedrontam dentro do nosso armário, embaixo da cama ou no escuro. Normalmente, conhecemos essas criaturas através de filmes, sonhos e eles quase sempre tem uma solução. O monstro com o qual convivo não é assim tão simples de ser vencido. Ele é o pior de todos porque ele é real e diário.

Essa minha entidade é uma hidra. Para quem não lembra, esse é o bicho de várias cabeças que, quando uma delas é cortada, nascem outras duas no lugar. Esse, assim como a maioria dos outros, vive um lugar de localização bem conhecida, porém nem todos se atrevem a ir até lá. Por mais que se conheça a sua localização, pouco se sabe sobre o que acontece por lá. É mais um daqueles locais escuros.

O monstro vive na minha cabeça. Não só na minha, mas de muita gente. Assim como os demônios dos filmes de exorcismo, seu nome é totalmente desconhecido. Até porque é aí que mora a sua fraqueza. Quando se descobre o seu nome, é aquela brecha de defesa em que conseguimos enfraquece-lo. Mesmo que não se saiba o nome da criatura como um todo, sei o nome de algumas das cabeças: estresse, ansiedade, raiva, dor, medo.

Esse demônio é tão ardiloso e habilidoso que ele consegue facilmente se esticar por toda a extensão do nosso corpo. Às vezes ele é tão flexível que chega no nosso estômago e faz ele arder como se tivéssemos tomado ácido sulfúrico. Às vezes ele vai para as nossas costas e passa as suas garras por nossa coluna. Às vezes ele fica pela cabeça mesmo e bate a sua cauda com força nas nossas têmporas, como se fosse uma britadeira. Às vezes ele ruge tão alto que utiliza as nossas próprias cordas vocais para amplificar sua imponência. Às vezes as cabeças resolvem trabalhar em equipe e fazem todos os nossos nervos se tensionarem de uma só vez. Ele é um triatleta do fim dos tempos.

Ele também tem características que lembram muito os dementadores do Harry Potter. Porque, quando ele se cansa de navegar pelo nosso corpo, ele se satisfaz sugando a nossa felicidade e sussurrando pensamentos negativos. Um adversário de peso.

Justamente por ele viver naqueles lugares de difícil acesso dos cantos negros da nossa mente, ele também tem acesso a um buffet praticamente livre para se alimentar. É assim que ele fica forte e cresce rápido. Até chegar no ponto em que ele fica tão insuportável de carregar que nos esmaga e toma conta. Talvez o mais duro de aceitar nisso é que somos os próprios garçons dele. Nós mesmos somos o que separa o definhar ou o fortalecer dele.

Na mitologia grega, a hidra só pode ser derrotada quando se bota fogo nela, para que ela se queime por inteiro de uma só vez e não possa regenerar suas cabeças. Assim na fábula foi algo relativamente fácil e rápido de descobrir e, apesar de hoje em dia dispormos de uma boa de uma gasolina, isso não se aplica nesse caso. Dispomos somente de uma pequena caixa de fósforos, onde conseguimos aos poucos, com pequenas cicatrizes por vez, queimar cada uma das cabeças do nosso monstro. É um processo contínuo, mas não diria infinito.

Ainda que nos tornemos especialistas na manipulação do fogo, precisaremos estar em um processo contínuo de fortalecimento e aprendizado. Afinal, o monstro sempre pode voltar, e, à medida que nos tornamos mais preparados para enfrenta-lo, ele também será mais difícil de vencer.

A eterna luta do bem contra o mal. Seremos nós os vilões ou heróis da nossa própria história? Só depende de nós.


Renan Berlitz

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