chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

O poder do amanhã

Amanhã, futuro, destino. Os nomes de um incerto guru.


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Quando estamos fragilizados por alguma situação, fica difícil acreditar que vai melhorar. Isso acontece com todo mundo, em alguns mais e outros menos. Mesmo assim, algo que temos que ter em mente é que isso é passageiro.

Em uma das minhas experiências profissionais, eu passei por um período bem difícil, conforme já mencionei anteriormente. Além da sensação de não pertencimento àquele local, as pessoas que, de certa forma, ainda me mantinham lá, aos poucos foram construindo planos de debandar. Eu até me esforçava para conseguir me manter no mesmo ritmo que eles nessa tórrida corrida em busca da felicidade em outro lugar. Entretanto, por mais que eu participasse de processos seletivos, os outros aparentavam sempre ter mais oportunidades e acesso às mesmas do que eu. Não me entenda mal, eu adorava essas pessoas, mas, quanto mais conversava com elas, mais as via colocando seu pé para fora da empresa e eu permanecendo no mesmo lugar.

Então, lá estava eu com uma batata quente na mão que acabou se desdobrando em três: estava insatisfeito com o meu emprego, meus colegas mais queridos estavam indo embora e eu continuaria no mesmo lugar e, pior, sem poder mais contar com o apoio deles. Hectare de batata, eu diria.

Nosso grupo era bem unido, e ainda é, apesar de, ainda bem, não estarmos mais no mesmo lugar. Nós estávamos no mesmo barco, compartilhando nossas experiências ruins, dando força uns para os outros e fazendo happy hours épicos de destilação de veneno. Ah, isso é importante também! É um mal necessário e é preciso colocar para fora. Não estava afetando ninguém de qualquer forma, bem pelo contrário, só estávamos nos aliviando do peso de uma rotina infeliz. E assim íamos seguindo para mais um dia, podendo contar uns com os outros.

À medida que o tempo passava, enquanto os outros tinham inúmeras propostas que eram praticamente certas, eu não tinha praticamente nenhuma. Isso foi acontecendo com um de cada vez, menos comigo. Eu continuava lá, sem esperanças e sofrendo com possibilidades que não aconteciam ou, pior, que poderiam acontecer.

É aí que podemos perder o controle. Apesar da paciência definitivamente não ser uma das minhas virtudes, resolvi dar uma chance para ela. Assim, do grande grupo que já estava com os dois pés para fora da empresa, eu já estava no avião indo para Dubai.

Não fui para Dubai. O que quis dizer é que eu fiquei sofrendo por antecipação todo esse período por medo de ficar para resta um. O improvável aconteceu. Acabei sendo o primeiro do grupo a efetivamente sair. E não foi para qualquer coisa e muito menos para ser o primeiro. Foi para uma ótima oportunidade mesmo. Foi o carinhoso jeito da vida me dar uma surra.

Assim, duas lições foram bem aprendidas com esse espancamento: não adianta sofrer por antecipação e que tenho que acreditar mais no poder do amanhã.

Se temos ou não caminhos já traçados, o famoso destino, não sei. Só sei que passei a dar um voto de confiança maior no futuro. É uma libertação poder compartilhar um pouco do peso que carregamos diariamente com a eventualidade do amanhã. Não só conseguimos ir mais longe, como também não nos cansamos tão facilmente como enquanto temos que andar sozinhos.

Amanhã, seu lindo, você tem um jeito controverso de ensinar. Por favor, não pare de me surpreender.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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