chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Só vale se está nas redes sociais

Vida e morte cibernética.


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Quem me conhece bem, sabe que sou um pouco avulso às redes sociais. Tanto, que só tenho Facebook e, até o presente momento, sem nenhuma pretensão de ter mais. Ter só ele já dá bastante trabalho e a quantidade de informações desimportantes me cansa às vezes. Também percebi que, além de ter se tornado uma ferramenta de divã à distância, as redes sociais perderam o seu sentido original: interação social. Mesmo que seja online.

Não me entenda mal, não sou um daqueles seres fossilizados que odeiam a tecnologia. Bem pelo contrário, acredito que ela é fundamental para o avanço. A questão é que estamos abusando um pouco disso e distorcendo os objetivos. Quando vejo que o Facebook, por exemplo, tornou-se uma plataforma que deixa as pessoas mais infelizes do que felizes, eu começo a querer manter distância.

Se você for parar para pensar bem, em muitos casos, as páginas estão mais voltadas para disseminar inveja nos outros do que propriamente utilizá-la para engrandecer a sua própria felicidade, mostrando para os amigos distantes que você está bem e realizado. É exatamente isso que faz ter vontade de abandonar as mesmas. Similar ao que aconteceu comigo em relação à religião.

Já sou exigente por natureza. Nesse caso, eu aplico o mesmo para a “vida” digital. Acho que até sou mais cricri nela do que na real. No virtual, eu não adiciono quem eu não conheço. Desativo o feed de pessoas que só postam coisas estúpidas, dramáticas, ou sempre o mesmo assunto. Da mesma forma, não faço questão de adicionar pessoas que conheço pessoalmente e tenho certeza que não me agregam em nada, tanto on quando off. Aliás, acho que muitas vezes a intenção por trás disso é só me espionar mesmo. É, eu sei que é meio pretensioso da minha parte, mas prefiro evitar a fadiga de ter as minhas informações espalhadas aos 4 ventos. Até tenho um “ritual” de uma vez por ano fazer uma limpa nos meus “amigos”. #mejulguem

Como muita gente já disse por aí, no mundo online, você pode ser quem quiser e o que quiser. Cada um faz o que bem entender, mas isso me parece uma idiotice sem tamanho. Ser uma pessoa na realidade e outra no mundo nos bytes deve ser muito cansativo. Essa dupla identidade deve ser um fardo que gasta muita energia, porque me soa confuso você manifestar uma opinião “para o mundo todo”, onde muita gente sinceramente nem liga para o que você diz, do que compartilhar a mesma para um vizinho, por exemplo. É interpretar um papel todos os dias. Gente, isso é um trabalho. É como se você tivesse dois empregos. Pior, é o que você não está ganhando pago por isso. Os atores da Globo que devem gargalhar disso.

Ao mesmo tempo, é contraditório saber que as pessoas passaram a dar mais valor para o que está publicado, do que um papo despretensioso com um bom café. Eu sei que juridicamente a frase “vale o que está escrito” é bem efetiva. Entretanto, novamente a gente acaba caindo na vala comum de querer mostrar algo que podemos ser e fazer de verdade. Um exemplo disso é o Dia das Mães. Quando começam a pipocar aquelas molduras prontas de “I S2 Mom” chega a me dar ânsia. Se você ama mesmo a sua mãe, ela vai saber disso. Mesmo assim, não custa reforçar virando para ela e dizendo isso pessoalmente. Se você não postar esse tipo de baboseira, não quer dizer que você não ama a sua, mas sim que prefere utilizar esse tempo para ficar do lado dela nesse dia, invés de perde-lo desnecessariamente. Isso é algo que você faz por quem você ama, porque, afinal de contas, só importará a essa pessoa mesmo e não aos demais.

Ainda assim, essas constelações virtuais são infinitamente úteis com inúmeras oportunidades de bom uso e aproveitamento. Cabe a nós, portanto, fazermos esse discernimento de como estamos agindo nessa história. Se a ideia for de expandir as utilizações para melhor, que assim seja. Se a tendência continuar sendo o contrário, melhor eu já ir me preparando para o meu funeral online. Ainda bem que nesse caso tenho a certeza da ressurreição.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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