chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Sódio: o antagonista galã

E assim você vai se deixando envolver e, quando percebe, já é tarde e deu ruim.


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Descobri recentemente um problema de saúde. Mais precisamente pedra nos rins. Mais precisamente 7 delas. Mais precisamente 1 delas trancada no canal urinário e 6 outras estáticas divididas entre meus rins. Auge dos meus 27 anos com problemas que, até então, julgava que só pessoas mais velhas tinham. Pois é, devo estar ficando velho mesmo.

É bem curioso como a coisa toda funciona. Ter esse problema é um dos divisores de água que a gente pode ter na vida. Considero que esse único problema é, na verdade, dois divisores em uma mesma situação. Digo isso porque, além da dor extrema que se sente, é uma convocação militar para uma vida mais regrada e saudável. Então fiquei assim: 1) é bem possível que eu não sinta dor pior em toda a minha vida, palavras do meu urologista, visto que a dor é comparada, senão pior, que um parto. Ah, nesse caso não tem epidural, amigos. É um buscopanzinho na veia mesmo. 2) conscientização de que meus hábitos alimentares eram bem ruins e que, sim, é preciso tomar vergonha na cara e sair do sedentarismo.

Há bastante tempo parei de odiar. Entretanto, em meus momentos de extrema raiva onde eu desejava o pior possível para meus então inimigos, eu nem sabia que existia o termo “vomitar de dor”. Sou prova viva que isso existe. Também compreendi que meu nível de “pior possível” poderia ser superado com mestrado e doutorado. A partir daí internalizei que eu não desejo essa dor para absolutamente ninguém, porque isso é muito desumano.

Assim, seguindo as recomendações médicas, era preciso observar bastante o antagonista galã do sódio. Mesmo sabendo que era preciso tomar cuidado com ele, sempre se podia colocar mais um pouco, para dar mais gostinho, né?! Como uns grãozinhos brancos tão purinhos podem fazer um mal tão grande? Nada, põe mais um pouco. Dessa forma que você assume seu papel de trouxa caindo na lábia dele e, num passe de mágica, deu ruim.

Quando comecei a ler os rótulos dos produtos, um novo mundo se abriu para mim. Pude constatar que o tal galanteador era, na verdade, um foragido da justiça, com um cartaz de “Procura-se” em praticamente todas as embalagens em que eu olhava. Posso dizer que a sensação deve ter sido a mesma quando descobriram os micróbios. Isso porque, assim como sempre foi constante o excesso de sódio dos alimentos, os micróbios também sempre estavam lá, porém foi preciso acontecer algo para que pudéssemos realmente ver que eles existiam.

Outro dia, já ciente da minha mais nova condição hipossódica, fui ao supermercado mais de turista do que cliente. Foi a minha primeira experiência investigativa de valores nutricionais e foi um verdadeiro intercâmbio para esse novo planeta. Passei pela seção dos embutidos, que já não me pertencem mais, juntamente com os produtos muito industrializados. Essa foi a minha maneira de oficializar a despedida desses itens e prestar condolências à minha glutonice. Quase fui de óculos escuros, como as senhoras chiques nos funerais.

Dei um tchau para o presunto. Enxuguei as lágrimas da calabresa. Encostei no ombro do miojo e fiz uma prece. Entreguei uma coroa de flores para os salgadinhos. Acendi uma vela para o molho barbecue e para cada membro da família dele. Dei um abraço apertado no bacon. Pedi que o pão sentasse comigo na calçada para tomarmos vinho quente, cantarmos sertanejo sofrência e lembrarmos dos bons tempos que já passaram. Momento de muita emoção na minha vida.

Bem-vinda ghee, como vai proteína de soja, aloha temperos fitness, tapioca, sua loca, ricota, minha best, miga granola, leite de soja, seu lindo. Avisa a Pugliesi que tô chegando!

É claro que, assim como qualquer dieta que se preze, a gente tem o dia do lixo. A lei da compensação também tem se mostrado eficaz. Tudo para a gente manter a sanidade mental e não nos tornamos aqueles insuportáveis das comidas funcionais e seus respectivos agregados. Vamos mesclando e deixando que novas constelações sejam descobertas nesse sistema ainda pouco explorado do zero sódio com sabor. E beba água, muita água.

Assim a gente vai vivendo, um dia de cada vez. Ou melhor, uma pitada de sal a menos de cada vez.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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