chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Tipo vinho

Uma carta aberta a um passado de bullying.


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Caros colegas de adolescência, talvez vocês não se lembrem mais de mim – aquele garoto meio gordinho, meio baixinho, meio estranho, meio nerd, meio de óculos – mas sou eu, e estou escrevendo aqui do futuro para vocês.

Aqui, o que vocês faziam comigo se chama bullying. É uma palavra gourmet para explicar os comentários maldosos a meu respeito e o fato de sempre me excluírem de tudo o que vocês, populares, faziam. Aliás, aqui isso está sendo bastante discutido como sendo algo preocupante. Não sei por que, só agora, isso está sendo massivamente divulgado. Sei lá, nada que alguém já não tenha passado ou ainda vai passar na vida. A série 13 Reasons Why vem para mostrar uma realidade não tão neutra disso. Vocês também vão conhecer a Netflix.

Não, não virei monstro para dar uma surra em vocês aqui no futuro. Não adquiri um tanquinho, não tenho um carrão, não viajei o mundo, não ganhei na Mega e, diferente dos discursos motivacionais para os nerds aí do passado, vocês não acabaram trabalhando para mim. Aliás, também não fico postando coisas nas redes sociais para fazer inveja em vocês.

Essa carta eu já tinha escrito há muito tempo. Eu bem que poderia ter escrito ela de forma a causar um mal-estar, contando como está sendo o futuro de vocês. Também confesso que, inicialmente, a escrevi com muitas doses de Anitta, Valesca Popozuda e Wesley Safadão. O fato é que isso estava fazendo mal a mim e não a vocês.

Com muita reflexão e maturidade, que só o tempo traz, ficou notório que parte do problema era eu mesmo que estava causando. A coisa toda é meio objetiva: eu tinha raiva de vocês porque eu tinha raiva, primeiramente, de mim mesmo. Eu simplesmente não aceitava como eu era e, por conta disso, tinha raiva de vocês por não me aceitarem assim. É hipócrita, mas essa é uma daquelas situações que só a experiência nos revela.

Apesar de todo esse sentimento ruim que eu nutria dentro de mim, eu percebi que eu era tipo vinho. Poucos gostavam de mim no início, talvez porque não tinham um paladar tão apurado para reconhecer as grandes qualidades que eu já tinha? Pode ser. Só sei que, mesmo com todas as impurezas que vocês jogaram em minha composição, eu tirei proveito disso para deixar a minha fórmula ainda mais diferenciada. Como o vinho, eu fiquei melhor e mais valioso com o passar do tempo.

De certa forma, também tenho que agradecê-los pela motivação extra para vencer o prêmio de melhor safra de mim mesmo. Sim, fiquei mais encorpado, com aroma e sabor refinados não só fisicamente, mas psicologicamente estou mais elegante e equilibrado do que jamais estive na minha vida. Assinei o tratado de paz comigo mesmo e me permiti ser eu mesmo.

Caso essa carta chegue até vocês, saibam que todas escolhas que fazemos tem consequências. Lembrem-se que sempre a vida acontecerá e cabe a cada um escolher o tipo de vinho que queremos ser. Ou então, nos tornaremos apenas vinagre.

Abraços,

Seu ex-colega


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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