chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Tribos urbanas

Sentem-se conosco e aproveitem a viagem.


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Lá no Ensino Fundamental fui ensinado sobre as tribos urbanas. Nada mais são do que grupos de indivíduos que dividem um interesse em comum. E tem uma infinidade deles. Cerca de duas semanas atrás, eu estava no metrô indo para casa, em um domingo à noite. Esse é um dos períodos que pode se ver a maior parte dessas tribos na prática.

Geralmente eu pego a linha bem no início e costumo fazer quase todo o trajeto dela. A viagem costuma ser bem agradável e, como eu gosto de escrever, acabo tendo um pensamento recorrente: imagina a quantidade de histórias que cada uma dessas pessoas tem. Em alguns momentos já quis ter poder de ler a mente, mas acho que definharia, porque só ia parar de escrever assim.

Justamente por entrar em uma das estações iniciais, eu tenho a oportunidade de ver os vagões serem habitados pelos mais diferentes tipos de cidadãos e suas respectivas tribos. Nesse dia específico, eu vivenciei algumas delas.

À minha esquerda tinha os metaleiros. Todos vestidos de preto, cabelos compridos, piercings, tatuagens, guitarras, jaqueta de couro, coturnos, mãozinha rock’n’roll, língua de fora.

À minha direita os skatistas. Cada um com seu respectivo skate, mochila, tênis gigante, moletom 2 números maior, bermuda (mesmo num frio de 10°C), boné aba reta e falando de suas manobras radicais na escadaria de alguma igreja.

Na minha frente, os pais. Mães com bebês no colo, tão entrouxados que mais pareciam uma escultura egípcia de 500 AC, vindo de transporte aéreo. Os papais de boina segurando uma mala, que depois descobri que era “apenas” o kit do bebê. Roupa engomadinha de botões, canções baixinhas da Galinha Pintadinha e ar de seriedade.

No meio, os mochileiros. Cada um com a sua respectiva mala ou malas, equilibrando seus respectivos volumes com uma maestria que faria o Cirque du Soleil bater palmas. Todos voltando para casa, após um feriadão, provavelmente indo para a rodoviária ou aeroporto. Eu estava nessa tribo.

Por mais que alguns aspectos se sobressaiam a respeito de cada um desses grupos, podemos classificá-los só por isso? Tenho convicção que não. Algumas coisas que eu não mencionei anteriormente:

À minha esquerda tinha os metaleiros que, sim, estavam vestidos de preto e tudo mais, mas eles também tinham um violão e tocaram mpb, Maria Gadú, Roberto Carlos, Maurício Manieri. Alguns deles tinham namoradas “normais” de calça jeans, tênis e casaco.

À minha direita tinha os skatistas que em algum momento viraram rappers e fizeram uma batalha de rimas com algumas palavras retiradas das canções mpb dos metaleiros. Depois, os skatistas-rappers se transmutaram em funkeiros e, talvez por algum lapso, o famoso “passinho” se tornou Despacito.

À minha frente os pais de roupa de botões do Capitão América, braços fechados de tatuagem, papais de barba comprida e palito de dente na boca, mamães com alargadores e meias compridas coloridas. Quando os bebês acordaram, os papais até estavam fazendo palminhas com as mãos dos bebês para acompanhar o cantarolar dos skakistas-rappers-funkeiros-despacitos.

No centro, eu, com os então mochileiros que também tinham cara de nerd, mas liam a biografia do David Bowie. Apesar de também serem mais estilosos do que um desfile em Milão, alguns mexeram os lábios mudos com o Maurício Manieri. Ali alguns pezinhos batiam no chão ao ritmo Deees-paaaa-ciii-tooo também. Alguns cobriam a boca e faziam beatbox mentalmente, enquanto filmavam a batalha dos Tony Hawk-Eminem-Ludmilla.

Pensa num show. Show da diversidade. A confraternização das tribos que já passaram anos-luz de serem estereotipados. Naquele momento, e, na verdade, no que tudo se resume é compartilhar um amor. Pode ser um amor trevoso, pode ser um amor de rodinhas, pode ser um amor de capuz, pode ser um amor que rebola a bunda, pode ser um amor latino, pode ser um amor Peppa, pode ser um amor Código da Vinci. Pode ser tudo e pode não ser nenhum deles.

A grande tribo poderia ser dos usuários de metrô, mas vamos deixar como tribo de seres humanos que já está de bom tamanho.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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