chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Caminho de pedras soltas

Crescer é um processo de selecionar caminhos.


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Quem nunca passou pela desastrosa tarefa de ter que pisar em pedras suspeitas durante uma chuva? E o pior, achar que está colocando o pé na certa, quando, na verdade, era justamente essa que levanta aquela água podre que suja toda a sua calça? Pois é, cheguei à conclusão que crescer é exatamente a mesma coisa. Calma, apesar que parecer uma armadilha, não é bem assim.

Passei por um grupo de adolescentes outro dia que falavam sobre fulana de tal que estava megamoderna com suas roupas e que precisavam comprar novas para que ela voltasse a falar com elas. Definitivamente, foi um daqueles momentos que agradeci por já ter superado. Apesar de não ter muito disso do lado masculino, não é assim tão diferente. Uma fase bem difícil essa quando nada a nosso respeito está bom e tudo o que diz respeito aos outros é melhor. Espera, mas tô falando disso lá atrás, ou de agora? Bem, caro leitor, caso esteja acontecendo com você e já passou da casa dos 25, está na hora de se resolver.

Já quis me inscrever em clube de futebol. Já quis que a minha voz fosse diferente. Já quis ter mais altura. Já quis ter um cabelo diferente. Já quis ter dentes mais brancos. Já quis ter um carro. Já quis ser mais extrovertido. Já quis ter muito mais do que já tenho. Desejos infindáveis, mas junto a maturidade vem umas perguntas bem importantes: eu realmente quero isso, ou eu preciso disso porque os outros acham que isso é melhor pra mim? Eu realmente devo ser assim para ser aceito? A maturidade grita escandalosamente em silêncio: “Foda-se”.

Eu tive uma ex-colega de trabalho que estava tendo problemas com a sua chatice. Veja bem, não que ela fosse chata com toda a carga da palavra. Esse é o termo mais fácil, que acabaram definindo-a por ela ser exigente, meticulosa. “Todo mundo me acha uma chata”, ela dizia. Eu respondi a ela que abraçasse a sua chatice. Simples assim. Ela ficou atordoada com a minha fala, mas é isso mesmo. Ou a gente faz algo para mudar, porque NÓS MESMOS achamos que isso é necessário, ou então nos aceitamos. As pessoas também têm que gostar da gente pelo que somos, e não pelo que podemos nos tornar. Isso faz parte da nossa personalidade. É isso que nos diferencia, nos torna únicos, completamente incompletos.

Talvez tudo esteja intrinsicamente conectado, mas quando mais estive de bem comigo mesmo, foi quando mais elogios recebi. Justamente aquilo que mais odiava a meu respeito, acabou sendo aquilo pelo qual fui reconhecido, de maneira positiva. Até já disseram que queriam ser assim. Uma das situações é que sempre fui atrelado ao termo “grosso”, porque tenho a mania de falar a verdade. Resolvi ficar calado, lutando arduamente contra o meu perfil. As pessoas começaram a reparar e me disseram que eu já não era mais como antes, que estava faltando algo. Com o passar do tempo, acabei sendo chamado de “verdadeiro”. É óbvio que isso não serviu para todos, mas só de ter gente que reconheceu isso, já provou que não era algo que eu queria, mas que queriam que eu fosse. Também sempre me achei bem mediano de aparência, sempre vendo os outros caras se darem muito melhor do que eu. Até o dia em que me disseram que tinham o sonho de ter a cor exatamente do meu cabelo, ou que com os meus olhos fariam um estrago nos corações alheios. Curioso, não?

Apesar de ter pessoas importantes para te auxiliar nesse caminho, também vão ter aquelas que se revelarão como a água lamacenta. Isso faz parte. Com o passar dos anos, você vai aprender a selecionar as pedras que tem um alicerce firme e impermeável. As demais vão ficar pelo caminho mesmo, só absorvendo cada vez mais sujeira. Por essas você vai passar longe, pular por cima, fazer uma curva. Que fiquem lá, vou seguir o meu rumo.

Não tem jeito, amadurecer é uma trajetória que mesmo com todo apoio que puder ter, você vai ter que trilhar sozinho. É você que vai pisar nas pedras soltas, vai se sujar, vai se estressar, vai reclamar, vai xingar até a quinta geração de quem fez a calçada. Depois, você vai chegar em casa e vai lavar. Quando acontecer de novo, você já vai estar mais preparado. Já vai ter experiência para saber em quais pisar. E, mesmo que acabe se sujando de novo, você vai pensar “ah, que saco”, e tudo bem, vai pra máquina de novo.

Crescer é isso. Se importar cada vez menos com as sujeirinhas que vão aparecendo, até chegar o momento em que elas já nem estarão mais lá, seja por ter aprendido a desviar das pedras que são cilada, ou porque depois de se sujar, é só se limpar mesmo.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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