chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Gemidão da academia

Para todos aqueles que não tem aptidão nenhuma para academia.


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Ir à academia é uma tarefa difícil. Tive dificuldade até de escrever isso em uma frase. Sim, só de pensar, já dá calafrios e preguiça, antes mesmo de se matricular. Gostaria muito de ser um daqueles seres abençoados que gostam de frequentar freneticamente esse local. Queria muito mesmo ser agraciado com esse dom. De levantar megacedo, sem qualquer problema para malhar. Ou de ir depois expediente mesmo, e me acabar nos aparelhos. Mas, isso tudo só de imaginar, já senti dores musculares por três dias em sequência. Entretanto, diferente da questão estética, para mim, era uma questão de saúde. Então, considerando que o médico tinha recomendado iniciar em março, como vocês podem ver, já estava perto de completar um ano desde que resolvi efetivamente começar de vez.

Eu já tinha me matriculado uns 6 anos atrás e consegui manter o treino por 3 meses. Aí tive uma apendicite e nunca mais voltei. Então, aqui estou relatando a minha volta espetacular a esse mundo paralelo repleto de personas bem características.

Tirando a parte de que tem os senhores, no auge dos seus 60 e tantos anos, puxando 45kg em cada braço, ao seu lado, enquanto você está com aqueles pesinhos laranjas bem clarinhos, quase cor de rosa, de, no máximo, 3kg cada, até que o treino não era tão complicado.

Ah, também tem aqueles que fazem questão de atravessar todo ambiente para buscar mais anilhas para seus aparelhos. Para ser compatível com os seus respectivos treinos, mas nunca para mostrar para os outros, claro.

Complementando a lista, tem ainda aqueles que são tão comprometidos com os exercícios que mais parecem que estão constantemente dando play no gemidão do WhatsApp. É um ah, ah pra cá. Um uff, uff, pra lá. Um argh, argh, acolá. Um birl, birl, atrás. Um uó, uó, à frente. Um ié, ié, à esquerda. Um ôh, ôh, à direita. Uma verdadeira sinfonia de onomatopeias eróticas, talvez?

Dando continuidade, a gente tem os selfies-maníacos. Olha essa veia saltando, flash. Chora nesse bíceps, flash. Baba nessa panturrilha monstra, flash. Reza nesse peitoral de aço, flash. Saca esses glúteos da Mulher-Maravilha, flash. Registra essa isquemia cerebral saltando nas minhas têmporas, flash. A sequência é gigantesca, mas ir na academia sem registrar ou fazer check-in? Impossível.

Aí vem as celebridades. Não podem ver um espelho que lá estão eles achando que é um camarim. Só uma levantada na regata para ver o tanquinho. Só uma erguida da camiseta para ver esse braço. Só uma subida na bermuda para ver essa coxa. Tadinhos, não devem ter espelhos em casa, daí tem que aproveitar a academia para curtir esse momento. Acho que até vou criar um projeto no Kickstarter para angariar fundos para esses pobres coitados.

Os conversadores são os nutricionistas do caos. É mandioca com atum para o oblíquo. Arroz sem lavar para recuperação muscular. Suco de couve detox como janta. Exercício que é bom, pouco se vê eles fazendo. É mais uma consultoria in loco para a alimentação de titânio. Ah, também são esses que gostam de um bom papo com as malhadas, utilizando os aparelhos como banco para terem uma conversa mais agradável. Tragam microfones, vai começar o stand-up de piadas ruins e sorrisos amarelos.

Por fim, tem você. No meu caso, um ser raquítico, cujos braços mais parecem gravetos e que é possível fechar o polegar com o anelar em volta do seu próprio pulso. Pernas que mais parecem palitinhos de churrasco e que, se bobear, serão pegas para tirar um restinho de couve do dente dos marombas. Ombros? Só para a camiseta não cair mesmo. O tipo de pessoa que fala pro instrutor pegar leve porque, afinal, você é a própria personificação do que é ser um frango.

Primeiro dia você vai lá e mesmo os seus braços e pernas tremendo mais que britadeira no asfalto, você continua. Na minha cabeça, o instrutor resolveu ignorar o meu pedido, mas eu continuo com o treino, porque vai que eu fico muito tempo parado e resolvem me usar de barra de exercício. Até que consigo completar todo o meu circuito, talvez faltando umas 6, 7, 8, 9 ou 10 repetições, mas completo. Nossa como sou fitness. Espera só até o final desse mês.

No outro dia, você não sente as suas pernas. Abrir o tubo da pasta de dente exige esforço. Subir escadas, um urro tímido a cada degrau. Você se espreguiça parecendo o tiranossauro Rex porque tem medo de que se esticar demais os braços eles vão cair de tanta dor. É você, no fim das contas, sendo o gemidão em pessoa, porém em todos os outros ambientes que não sejam na academia.

Já perguntei para alguns amigos e conhecidos como eles faziam para gostar dessas sessões de tortura. Eles me disseram que isso era só no primeiro mês. Já estou indo pro terceiro e continuo querendo carimbar meu passaporte pra Plutão. Nunca vi alien malhado, então acho que vou pra lá mesmo.

É, eu sei que a gente não deveria se importar com as outras pessoas à sua volta. A preguiça vai sorrateiramente confabulando com a comparação e você olha para os outros e quase não vê resultados em você. Você até comprou as luvinhas para não dar calos nas mãos. Comprou um tênis mais adequado para a esteira. Comprou um fone melhor para não prestar atenção no resto do universo e viver isolado dentro da sua playlist. E ainda aquela camiseta caríssima dry-fit e uma bermuda de moletom, a qual até hoje você não entende porque custa mais caro do que uma calça inteira de moletom, mas paga igual para ajudar você a se adequar à essa rotina.

Então, você já está indo para o quarto mês, suando todas as vezes mais que porca selvagem no cio, e apenas agora começa a ver um borrão no abdômen que até hoje não definiu se é uma mancha de sol, que você nunca pega, ou então uma tentativa do seu corpo de pregar uma peça em você fingindo ser um uma ilusão frustrada de gominho de tanquinho. Você se olha no espelho e flexiona o bíceps para ver aquele enorme tumor de músculo másculo, mas aí você se dá conta que, mesmo passando o dedo em uma linha reta, sente uma insignificante elevação. Picada de mosquito, você pensa. Você se lembra dos corpos esculpidos pelo Michelangelo do leg-press e o Da Vinci do crucifixo invertido, e tem a certeza de você mais parece uma massinha de modelar achatada por crianças no jardim de infância.

A gente tenta não perder o ritmo, mesmo o seu corpo inteiro se recusando. Pior é que parece que tudo ao seu redor conspira em um movimento anti-saudabilidade. Seu colchão te envelopa melhor do que um enrolado de salsicha para que você não o abandone. Seu sofá cantarola músicas de ninar, enquanto te cobre com uma mantinha, travesseiro e toda a espuma necessária para não ter dor nas costas. A sua geladeira lança o feitiço da cegueira seletiva e, ao abrir as portas, subitamente não vê mais nada de pasta de amendoim, whey, frango, tapioca ou batata doce. Entretanto, no seu colo salta a pizza congelada, o doce de leite, o pão de queijo e a coxinha. Como se fossem os seus pets te recebendo depois de um longo dia fora de casa, implorando por atenção com aquelas caras fofas e carentes. O seu celular também começa a ter aulas em Hogwarts e os seus dedos parecem selecionar somente os números da tele-entrega. Os outros, fantasticamente sumiram. Talvez seja o chip com defeito, é o que você diz para si mesmo.

Eu vou indo lá. Já vou psicologicamente me preparando para acordar disposto a ir na academia. Sei que mesmo que não tenha nenhuma parte do corpo doendo, quando o despertador tocar, ele vai ser precedido de um gemido de ódio e incredulidade. Tenho a impressão de que os vizinhos até achem que a música do meu celular é “Vai malandra”, de tão parecido que deve ser o som que faço para não precisar levantar.

Algum dia deve surgir essa disposição. Espero. Acho. Talvez. Quem sabe. Vida que segue.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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