chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Pilha de louça

Um amontoado de sentimentos para serem limpos e organizados.


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Se a nossa vida já é corrida durante o ano, é no final dele que as coisas ficam ainda mais loucas. É um período bem complicado, porque todo mundo quer tudo para ontem, como se o mundo fosse acabar até o dia 31. Isso acontece em todos os aspectos: relações, no trabalho, nos compromissos e etc. Nesse período tenso, pelo volume e intensidade de afazeres, eu deixei uma louça quase uma semana na pia. Nada que alguém já não tenha feito, mas ela me fez refletir.

A louça é como os nossos sentimentos. Pode ser pela vida ultra-atarefada que vivemos, pode ser porque só estamos evitando conflitos, pode ser pelo motivo (ou desculpa) que você quiser encaixar melhor aqui. O fato é que cada vez mais estamos deixando as coisas para depois. Não que isso seja necessariamente ruim. Um pouquinho de preguiça, de vez em quando, também pode fazer bem, vai! Mesmo assim, é preciso coragem.

A Elizabeth Gilbert já disse uma vez que coragem é fazer algo que nos cause medo. Não precisamos começar a sermos mais corajosos pulando de bungee jump. A gente precisa começar mesmo nos conhecendo melhor. É, talvez isso seja até mais difícil que uma aventura radical. Fácil nunca vai ser, mas é preciso dar o primeiro passo.

Assim como a louça que a gente negligencia, colocando uma ou duas peças a mais por dia, os nossos sentimentos e opiniões também vão se empilhando. Ah, só mais um prato hoje. Ah, só mais uma lágrima amanhã. Quando você para mesmo para olhar, o que era apenas alguns talheres, se transformaram em uma montanha de coisas sujas.

Descobri que, quando efetivamente decidimos enfrentar todo esse entulho, nem sempre é tudo aquilo que a gente imaginou. A minha louça física parecia gigantesca ao final da semana, quando eu olhava de longe. Entretanto, quando eu arregacei as mangas, tendo a espoja em uma mão, e o detergente na outra, eu soube que eu acabaria com ela ali mesmo. Um tempo depois de iniciar, eu percebi que ela era bem menor do que imaginava. 20 minutos foram suficientes para deixar a pia tinindo.

O simples garfo de hoje é o jogo de talheres de amanhã. Seguindo essa lógica, também é pertinente citar que, quando a gente simplesmente joga as coisas lá na pia, elas ficam assim desorganizadas e, assim, sempre vão parecer muito maiores do que realmente elas representam. Jogar de um lado para outro não resolve, só acumula.

Nós somos os responsáveis por isso. Cabe a nós resolvermos isso. Eu também sei que, às vezes, a gente não consegue dar conta disso sozinho porque a nossa pilha de louça acabou sendo muito maior do que nós mesmos. É nessas horas que a gente vai precisar pedir ou buscar por alguma ajuda. Uma faxineira por vezes é tudo o que precisamos. São elas que vão nos ajudar a deixar tudo limpo e no seu respectivo lugar. Não conseguir fazer isso por conta própria, não é vergonhoso ou digno de pena. Cada um é diferente. Uns conseguem, outros não. Só nós é que sabemos a dor e a delícia de sermos quem somos.

Para 2018, vamos evitar aglomerar nossos sentimentos. Reservar um tempo para nós mesmos é suficiente para deixar tudo em dia. E, se percebermos que já não estamos mais dando conta, vamos mostrar para a vida quem é que manda nela fazendo aquele faxinão para ninguém botar defeito. E que tal se, invés de se matar limpando aquela panela de arroz queimado, jogarmos ela fora e comprarmos outra? Às vezes não vai valer a pena mesmo, então porque não recomeçar com uma nova?

A pilha de louça é minha, então eu faço dela o que eu quiser e tudo o que puder para ela não se criar.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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