chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Ex-amigo

"Eu não perdi um amigo, eu percebi que nunca tive um"


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Outro dia no trabalho fui contar uma história e usei o termo “ex-amigo”. Alguns colegas acharam estranho e outros concordaram. O fato é que para mim, sim, existe ex-amigo e existem inúmeros motivos para isso acontecer. Como você lida com isso, é um problema seu, claro, e também não diz respeito ao que os outros acham ou vão achar disso. Mesmo assim, compartilho aqui algumas notas sobre essas pessoas que passaram a integrar essa categoria. Sim, é no plural mesmo.

Um dos grandes motivos é a troca de rumos. A vida dá muitas voltas e nos faz ir para caminhos muitos diferentes. É nesses momentos que chegamos em cruzamentos que alguns ficam para trás, ou resolvem ir para a direção totalmente oposta à sua. Seja por escolhas próprias, suas ou por já não dividir mais os mesmos valores de antes. São escolhas e ninguém pode fazer as nossas por nós mesmos.

Relacionamentos são fatores-chaves para uma amizade. Aqui é bem fácil de identificar, basta observar o seu amigo (a) começar a namorar. Em muitos casos, os amigos acabam sendo chutados para escanteio, porque agora surgiu um novo motivo pra ele (a) viver. Muitas pessoas parecem que adquirem labirintite, porque perdem a total noção de equilíbrio, me parece. Invés de tentar manter a balança em simetria, acaba ficando 10% do tempo, ou menos, para você. E adivinha para quem eles virão correndo quando o relacionamento acabar? Para os 10% trouxas que somos nós para aceitar esses ingratos de braços abertos.

Interesse, ou melhor: ah, esqueci que só existo quando você precisa de alguma coisa. Infelizmente, a gente não percebe logo quando está em uma amizade abusiva. Você acredita nas pessoas e fica com uma cegueira momentânea, até que começa a juntar pequenos detalhes que passam despercebidos, mas que, olhando numa visão macro, você tem a certeza absoluta que é puro interesse. Você só serve quando convém, quando você tem coisas a oferecer. Engraçado que a contrapartida raramente acontece, isso quando acontece. O lado bom é que eles mesmo somem quando já sugaram tudo o que podiam de você, ou quando você já não tem mais o mesmo status de antes. Interesseiros precisam ser eliminados logo de início como aquelas ervas-daninhas que infestam a sua horta, pra não se tornarem cada vez mais nocivos.

Prioridades. Você tenta marcar coisas, mas a pessoa sempre está ocupada ou sem tempo. Demora pra responder e, quando responde, sempre são respostas curtas, quase monossílabos que não dizem muita coisa. Na verdade, dizem muito: você não é uma prioridade para o seu amigo (a). O mesmo se aplica quando é sempre você que tem que acionar a pessoa para ser lembrado. Aí você tem que ouvir que a pessoa não se manifesta muito, mas que pensa em você. Ah, me poupa né?! Quem se importa, tá junto ou se faz presente de alguma forma. Mandar uma bobagem por Whats, já é uma singela forma de você estar lá, mesmo sem estar. Já pode entregar o voucher para a categoria de ex-amigo. Já estou quase carregando um daqueles rolos de senha pra distribuir por aí. Sério, por que eu deveria fazer questão, se os outros também não fazem? Quem quer, dá um jeito e quem não quer, arranja uma desculpa. Frase pra vida.

Talvez um dos piores deles seja esse: quebra de confiança. Pensa só, você convive por anos com um amigo, conta um monte de segredos, divide aflições, medos, insanidades, vergonhas e etc. E acontece algo, ou você acaba descobrindo, que a pessoa usou as confissões e fraquezas contra você para te denegrir. É de uma mesquinhez e frieza tão absurdos que o seu coração se despedaça na mesma hora. Sei bem como é. Toda aquela admiração e história que foi construída é como um espelho que foi espatifado. Você até perdoa, tenta esquecer e até cola os cacos. Nunca mais vai ser a mesma coisa. Por melhor que seja a cola, a rachadura sempre ficará lá para te lembrar o que aconteceu.

Chame de infantil, chame do que quiser, mas eu bloqueio mesmo. Não estou nem aí pra sua opinião. Silenciar só pra não ver mais o que a pessoa está fazendo ou como ela está? Não, obrigado. Não sou blogueirinho, instagramer ou digital influencer. Então números e quantidades nunca fizeram muita diferença pra mim. Sempre preferi qualidade mesmo e como não consigo mais ter uma amizade do mesmo nível, simplesmente não quero mais. Manter o contato para quando um dia precisar, também acho de um egocentrismo e calculismo sem tamanho. Se você não tem problema com isso, tudo bem, siga em frente. Comigo não funciona assim.

Você pode pensar que esses não eram amigos de verdade e pode até ser. Eles também podem ter escolhido deixar de ser amigos de verdade nesse meio tempo. As pessoas mudam, simples assim. Amigo mesmo, na essência da palavra, é aquele que você vai poder contar sempre. Se não é assim, não é amigo, é conhecido.

Como eu citei antes, tudo são escolhas. Eu escolhi não ser obrigado a ter amigos de aparência ou pra encher redes sociais. Aos amigos que se tornam ex, agradeço o que foi legal e valeu a pena. Pra todo o resto, peço licença, entrego o ticket e peço pra sair da minha vida. Boa viagem!


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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