chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

Quanto tempo cabe na palavra "tempo"?

Reavaliações do tempo e vida profissional na pandemia.


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É precisamente 09:04 de um domingo. Estou aqui de pijama, óculos, cabelos desgrenhados em frente a um computador no meu escritório improvisado na mesa de jantar. A ergonomia mandou um "oi, sumido!", a propósito. Essa é a minha primeira vez escrevendo no LinkedIn, escrevendo no LinkedIn, mas esse texto é um que eu já queria ter escrito há mais tempo e acho que faltava exatamente a oportunidade ideal para isso. Apesar de estar super em alta palavras como pandemia, home-office e desemprego, a maior delas por trás de tudo isso é “tempo”.

O covid-19 nos trouxe uma cascata de reavaliações. Engraçado como algo relativamente simples e, aparentemente, insignificante desestabilizou várias certezas e incertezas. Eu tinha o hábito de dizer: “Nossa, onde trabalho home-office não é uma possibilidade” em todas as minhas experiências profissionais. Cá estou, prova viva que de que tive que morder a minha língua sobre isso. Grande parte disso, confesso, por uma mentalidade que deixei que fosse implantada pelos meus gestores até então.

Uma das maiores desculpas que sempre ouvia era: “Não gostam muito de home-office aqui”. Uma forma mais suave de dizer que não é possível controlar os colaboradores. Eu me teletransporto para o ensino fundamental, com 8 anos, nesses momentos. Gente, somos todos adultos e sabemos das nossas responsabilidades. Se não entregarmos, não receberemos a contrapartida do salário, é simples assim.

Além de nos mostrar que vários trabalhos podem ser realizados de casa, vide a minha mãe que trabalha mais de 30 anos na mesma empresa e nunca sequer cogitou essa possibilidade, a pandemia também está nos mostrando que isso é tão eficaz, se não até mais, que o presencial. Eu já ouvi de vários amigos que estão trabalhando mais do que normalmente estariam. Em alguns casos, porque os gestores estão passando mais trabalho por medo de que a produtividade não seja tão grande quanto antes, ou porque justamente querem mostrar trabalho para eventualmente não entrarem nas estatísticas dos desempregados. Tudo que não está em equilíbrio é prejudicial, lembrem-se disso.

Em grande parte das empresas que já trabalhei, os executivos levavam as suas HP 12C para absolutamente todas as reuniões que participavam. Infelizmente, esse é um comportamento que se comprova com o incrível vídeo do João Pacífico publicado há alguns dias, onde os colaboradores, pra não dizer tudo, são vistos apenas como cifrões por muitas empresas. Apesar de ter plena consciência que há questões intangíveis, justamente por trabalhar com marketing e publicidade, vou trazer uns dados com números para vocês, HPlovers.

Em 2015, a Suécia, país referência mundial em direitos trabalhistas e bem-estar da população, resolveu testar a carga horária reduzida de 6h diárias, sem redução de salário. Um ano depois, os resultados apareceram: aumento de 100% da receita das empresas, redução de faltas, maior produtividade e melhora até mesmo na saúde dos empregados.

Já na Nova Zelândia, recentemente foi feito um experimento com um cenário um pouco diferente, 8h diárias, porém somente 4 dias por semana, durante 2 meses. O resultado disso foi que a diminuição de horas não impactou no resultado financeiro do período. Além disso, 78% dos funcionários disseram ter tido mais sucesso no equilíbrio cotidiano (melhora de 25% em percentual anterior) e redução de 7% no nível geral de estresse, sem prejuízo da produtividade.

Não tenho tempo. Não tenho tempo. Não tenho tempo. Quantas vezes a gente já repetiu isso em função do trabalho? Nós precisamos dele para sobreviver, claro, mas até que ponto vale a pena dedicar todo esse montante de vida para algo que não nos faz feliz?

Lembro de ter assistido um comercial do Itaú em 2016 que foi um dos melhores que já vi. Resgatei ele para escrever esse texto e me emocionei assistindo novamente. Ele permanece extremamente atual e nos dá um tapa na cara sobre o que citei no início do texto: reavaliações.

Agora, mais do que nunca, podemos ser os donos do nosso tempo. Aproveite, reflita, readéque, faça valer.

*Artigo de minha autoria publicado originalmente no LinkedIn.


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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