chacoalhão

sublime cotidiano

Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve

2020: surtos, verbos e contradições

Uma retrospectiva um pouco mais humorada, mas não menos real do que foi esse ano que entrou pra história.


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Outro dia, assistindo a um programa, saiu uma pesquisa onde os brasileiros elegeram “cuidado” como a palavra do ano. Diferente de um substantivo, ou talvez até de um adjetivo, eu acho que a palavra do ano deveria ser um verbo mesmo. Verbo é movimento, é fazer acontecer. Para mim, a palavra que resume com maestria é “reavaliar”. Esse texto está cheio de contradições, afinal ele é um reflexo fidedigno do que 2020 representou.

Esse ano foi o mais difícil desde que eu me entendo por gente. E, segundo esse mesmo programa que citei anteriormente, o mais difícil do século. Parabéns, 2020, seu cretino.

Outro fato é que não existe experiência 100% negativa, então sim, ele também trouxe algumas coisas boas. Não irei estimular a felicidade tóxica do movimento gratiluz, porque já enchi o saco dele já faz tempo também.

No início da pandemia, escrevi um texto sobre o tempo e como ele está diretamente ligado a reavaliar. O que antes a gente achava que não tinha tempo para fazer, era jogado para baixo do tapete, para ser resolvido mais tarde. Na velocidade da luz, 2020 gargalhou e vomitou tudo isso na nossa cara, igual à menina endemoniada do Exorcista. De carona com esse jato verde, teve a transformação digital e a reavaliação da nossa relação com o trabalho.

Muita gente perdeu o emprego. Muita gente trocou de emprego. Muita gente passou a fazer home office. Muita gente achou que não seria possível. Muitos chefes acharam que perderiam o controle e a produtividade. Muitas reuniões foram substituídas por um e-mail. Muitas continuaram acontecendo remotamente por vídeo. Muita gente teve problemas com a câmera. Muita gente teve problema com o microfone. Muita gente teve problema com a internet. Muita gente perguntou “estão vendo a minha tela?”. Muita gente trabalhou bem mais do que presencialmente. Muita gente passou a ter mais qualidade de vida. Muita gente passou a aproveitar mais a família. Muita gente quis virar monge por causa dela. Muita gente já tem certeza de que o retorno pode ou precisará ser com jornada intercalada. Muita gente normalizou o moletom e a brusinha da faxina como uniforme. Muita gente já fez a reavaliação da sua vida profissional frente à pessoal.

Assim, replicamos essa tendência para todas as demais relações afetivas. Reavaliações foram feitas de cônjuges, namorados, família e amigos. A contradição está novamente presente aqui, onde passamos a ter um relacionamento mais próximo, mesmo estando mais longe. Percebo que, de uma forma natural e espontânea, esse ano trouxe à tona quem valia a pena e quem já não fazia sentido continuar conosco. Na mesma proporção em que laços foram estreitados, eles também foram desatados. E tá tudo bem. Já não somos mais adolescentes carentes de aceitação e de quantidade de pessoas que nos amam. Adulto gosta de qualidade (e boleto pago, porque né?!). Namaria já disse: “ao menor sinal de desinteresse, retribua, suma”. Sim, tivemos mais tempo, mas para certas coisas não, e já não fazemos mais questão de ter também. Beijo, bênção.

Na loteria pandêmica, eu gritei bingo várias vezes: surtei, briguei com várias pessoas, chorei, raspei a cabeça, dei caminhada em volta do prédio, falei que estava com a câmera desativada pra melhorar a conexão (quando na verdade eu tava parecendo o náufrago de pijama), lavei sacolas, tentei fazer exercícios em casa e peguei no sono, dialoguei com o molho de tomate no supermercado na frente de outras pessoas, … (Conta os seus nos comentários? 😉)

Os meus desejos para o novo ano que se inicia permanecem sendo verbos: superar, sobreviver, curar, vencer. Sigam constantes, sigam em movimento. 2020 acabou, mas a luta continua, menos por papel higiênico. Esse ano foi uma m****, mas nunca foi pra tanto.

Ainda vamos rir de tudo isso, fazendo juntos uma fogueira de máscaras, ok? Vai dar tudo certo.

*Artigo de minha autoria publicado originalmente no LinkedIn


Renan Berlitz

Publicitário por formação e desajustado por natureza. Apesar de ser supersincero e muito exigente, tenta viver uma vida mais leve.
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