cinema e linguagem

Linguagem e Mitos no cinema e na literatura

Fernando Vugman

Doutor em Literaturas da Língua Inglesa, escritor e tradutor, me interesso pela cultura contemporânea e atualmente pesquiso o significado dos monstros na literatura e no cinema.

O Mito do Monstro e o Zumbi

No primeiro post escrevi sobre a origem e o significado do Mito do Monstro, discorrendo brevemente sobre o Conde Drácula, o Lobisomem, a criatura do Dr. Frankenstein e Mr. Hyde como metáforas modernas do Mito. Agora falarei sobre o zumbi, como ele se transformou na metáfora contemporânea do Mito e como suas características o tornam a perfeita expressão dos terrores que nos atingem nos dias atuais.


whitezombie1.jpg O zumbi aparece pela primeira vez nas telas com o filme Zumbi Branco (1932), dirigido por Victor Halpering e estrelado por Bela Lugosi. Esse filme apresenta um feiticeiro vodu que traz os mortos de volta à vida através de magia. outros filmes, como A morta viva (1943), de Jacques Tourner, são lançados, numa fase do gênero conhecida como "haitiana". O filme de Halpering estabelece as primeiras convenções específicas: o morto vivo como um ser escravizado por um senhor por meio da magia ou da feitiçaria (sugerindo a alienação espiritual do trabalhador em relação ao seu trabalho, bem como o impedimento do usufruto dos bens que produz); como ser sem vontade própria e insensível à dor; o figurino pobre, que remete ao figurino do monstro cinemático de Frankenstein (frequentemente lido como metáfora do trabalhador explorado no início da era industrial), mas também referente aos trabalhadores explorados nas colônias europeias; e a divisão dos personagens basicamente entre uma aristocracia ociosa e trabalhadores sem direitos, explorados no campo ou em uma estrutura fabril muito primitiva.

Esse formato e sua semântica permanecem razoavelmente inalterados até 1968, quando o diretor George Romero apresenta o seu A Noite do Mortos Vivos. Com novas características, o zumbi se transforma num dos mais populares e bem sucedidos personagens dos subgêneros dos filmes de terror. Não é mais ressuscitado por métodos mágicos; não é mais um corpo sem vontade própria e escravizado pelo vilão, mas um ser movido por algum impulso interno e incontível, de origem nunca bem explicada, alheio a qualquer ordem externa. A Noite dos Mortos Vivos elimina uma explicação mágica, ou qualquer explicação para o aparecimento dos zumbis, e substitui uma vontade regida por um senhor por uma vontade de origem desconhecida, cujo impulso se apresenta como uma fome insaciável pela carne de humanos vivos. night2.jpg Romero cria aquilo que viria a se cristalizar como a “forma zumbi”, para dotá-la de um potencial metafórico sem precedentes em nenhum outro monstro. Ao libertá-lo do domínio de um senhor, Romero elimina a relação entre o zumbi e qualquer propósito ou finalidade; ao mesmo tempo, dota-o de uma vontade agressiva e destruidora. Um ser que se apresenta simultaneamente como uma força da natureza e como um ser sobrenatural, movido apenas pelo desejo de consumir, mas que nada ganha com este consumo. Uma criatura que se orienta sempre como massa, como multidão. Um monstro cuja aparência é a de alguém que “morreu em vida”, ou seja, que se move como os vivos, mas cuja superfície exibe uma destruição mais profunda, interior, uma corrupção da própria alma, da própria vontade. Com A Noite dos Mortos Vivos o zumbi se torna uma metáfora da sociedade de consumo, da sociedade de massas, da preocupação excessiva com a própria aparência e outras angústias relacionadas à aparência das pessoas, das crises de identidade contemporâneas, dos processos desumanizadores da lógica econômica e social moderna, do uso pervertido da tecnologia, do medo da morte e de uma variedade aparentemente infindável de instintos e emoções humanas destrutivas latentes. walking1.jpg Nas décadas seguintes, nossas referências para entendermos o mundo, herdadas da modernidade, começam a se desfazer com a mesma força incontrolável e inexplicável do zumbi. Transformações do corpo, dos comportamentos e dos valores vão tornando nosso conceito de humanidade cada vez mais vago e indefinível. A própria noção de vida fica imprecisa, num movimento que parece abarcar todo o planeta. Estamos diante do fim do mundo como o conhecíamos, diante do próprio apocalipse.

Em A Noite dos Mortos Vivos um pequeno grupo se refugia numa casa durante uma noite, enquanto os zumbis tomam o país. No final, as forças da ordem restabelecem o império da vida normal. Nas narrativas de zumbi mais atuais, como Guerra Mundial Z e The Walking Dead, a horda de zumbis tomou tudo. Os pequenos grupos de sobreviventes não têm mais um lugar onde se abrigar por muito tempo e são obrigados a vagar em um cenário ao mesmo tempo desolado e cheio de movimento. Sobreviventes e zumbis vagam por territórios que, como eles, já morreram, mas que permanecem. O zumbi é a metáfora de um mundo que já morreu, incompreensível, mas que se impõe diante de nós, sem horizonte e sem qualquer esperança.


Fernando Vugman

Doutor em Literaturas da Língua Inglesa, escritor e tradutor, me interesso pela cultura contemporânea e atualmente pesquiso o significado dos monstros na literatura e no cinema..
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