cinema e linguagem

Linguagem e Mitos no cinema e na literatura

Fernando Vugman

Doutor em Literaturas da Língua Inglesa, escritor e tradutor, me interesso pela cultura contemporânea e atualmente pesquiso o significado dos monstros na literatura e no cinema.

O Mito do Monstro

Neste primeiro post do Cinema e Linguagem vou falar um pouco de um dos temas que abordarei com mais frequência: o Mito do Monstro. Trata-se de um mito muito antigo, relacionado com a nossa própria identidade como seres humanos, e que se manifesta em todas as culturas e em todos os tempos através das histórias do monstro e os monstros nelas inventados.


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O mito do Monstro provavelmente surgiu quando nossos primeiros antepassados começaram a se questionar sobre a própria identidade. Foi essa questão que nos separou do resto dos animais, que apenas são, sem se interrogar sobre o que, ou quem são. Apenas nós, humanos, nos questionamos sobre a própria existência. Tentar responder à pergunta "quem/o que sou?" gerou uma ansiedade que nos acompanha até hoje. Não nos basta apenas viver seguindo nossos instintos. Precisamos de uma explicação para o sentido de nossa existência; uma explicação no plano ético, moral e existencial. Essa necessidade gera a ansiedade de nos entendermos como seres humanos num sentido mais amplo, como possuidores de alguma essência humana, seja no plano espiritual, seja como corpo material, a nível individual e coletivo.

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Assim, desde que adquirimos consciência da própria existência, tentamos definir os limites do que é humano , chamando de monstruoso tudo aquilo que, como humanos, não podemos aceitar. Portanto, o monstro tem a função de delimitar as fronteiras que separam o humano do não humano, o civilizado do não civilizado, o bem do mal, o certo do errado. Por ser sempre o Outro, o monstro remete a nossa identidade e à alteridade.Quando dizemos "não sou um monstro!", estamos reafirmando nossa própria humanidade. O paradoxo desta situação vem do fato de que sempre encontramos no monstro algum elemento de humanidade, o que torna esse limite sempre fluido e instável.

Cada monstro que aparece numa história é imaginado de acordo com as referências culturais e códigos de valores da comunidade que o imaginou. Assim, cada monstro inventado pode nos dizer muito sobre uma determinada cultura, numa determinada época e numa determinada geografia.

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Por exemplo, o Conde Drácula, a criatura do Dr. Frankenstein, o Lobisomem, Mr. Hyde, do romance Dr. Jekyl e Mr. Hyde, são exemplos de monstros relacionados com sociedades ocidentais da Modernidade. O zumbi, como veremos num próximo post, é um monstro da pós-modernidade, ou dos dias atuais.

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Além de pertencerem ao mundo moderno, esses monstros funcionam como metáforas de angústias específicas: o monstro de Frankenstein reflete a ansiedade gerada pela imagem do ser humano como um ser semelhante a Deus, capaz de criar vida através da ciência. Drácula remete às questões sexuais da Europa em fins do século XIX. O perverso Mr. Hyde eclode de dentro do civilizado Dr. Jekyll, desafiando a crença de que o homem civilizado ocidental será capaz de criar um mundo melhor através da ciência e da tecnologia, ao mesmo tempo em que denuncia o lado sombrio do desenvolvimento tecnocientífico.

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Nos dias atuais, quando todas as referências herdadas da modernidade estão se desmanchando a olhos vistos, o monstro que mais bem reflete nossas angústias é o zumbi: em suas histórias o mundo que conhecemos desapareceu e talvez por isto o zumbi, diferentemente de seus predecessores, apareça sempre em histórias apocalípticas. Com o zumbi, a própria noção de "humano" é posta em questão, e não se avista a possibilidade de um novo mundo reconstruído, num cenário em que nem mesmo a ideia de morte e vida se sustenta com clareza.

Neste blog vamos nos divertir falando dos filmes e histórias de monstro, enquanto aprendemos um pouco mais sobre como e por que eles nos afetam tanto.


Fernando Vugman

Doutor em Literaturas da Língua Inglesa, escritor e tradutor, me interesso pela cultura contemporânea e atualmente pesquiso o significado dos monstros na literatura e no cinema..
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