cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

A VILA: COMUNIDADE UTÓPICA E O FLUXO PERPÉTUO

Alguns filmes valem a pena ver de novo, e este é o caso de A Vila de M. Night Shyamalan. Mesmo com algumas críticas desfavoráveis, se atentarmos para algumas questões do filme, podemos refletir com muita profundidade sobre a liberdade, a violência e o progresso. Shyamalan toca na ferida de uma sociedade que cada vez mais troca a sua liberdade por uma vida mais segura e palpável.


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Nunca nos banhamos no rio duas vezes, pois, as águas do rio não são as mesmas e nós nunca somos os mesmos, já refletia o filósofo Heráclito. Tudo muda e nós, também, mudamos, na verdade, devemos mudar. Por isso, sempre se recomenda ler um bom livro no mínimo duas vezes, e com uma margem de intervalo significativa entre as duas leituras; pois, com certeza, teremos uma nova concepção do livro, ou no mínimo, descobrir algo que passou despercebido. O mesmo vale para a maioria dos filmes, há um em especial que merece ser assistido mais uma vez: A Vila.

A Vila de M. Night Shyamalan (direção e roteiro) não foi bem recebido na época do seu lançamento, houve acerbas críticas sobre supostos furos em seu roteiro, mas, na verdade, Shyamalan sofre com a maldição de ter feito sucesso absoluto (público e crítica) com o cultuado Sexto Sentido; todos, depois dele, ficaram abaixo das expectativas: Corpo Fechado, Sinais, A Dama das Águas e, inclusive, A Vila. Partindo dessa lógica, seria uma péssima idéia rever A Vila, seria se a sua história não oferecesse tantos pontos de reflexão. Podemos refletir sobre a liberdade, a violência e, principalmente, sobre o progresso.

O filme é ambientado no final do século XIX, em uma vila rústica em que a comunidade é controlada por um Conselho de Anciãos, que ditam todas as normas e protegem esta microssociedade, tendo como líderes Edward Walker (Willian Hurt) e Alice Hunt (Sigourney Weaver). Este Conselho protege a vila escondendo certas verdades do restante da comunidade. Outros personagens importantes no filme são a jovem cega Ivy (Bryce Dallas Howard) e o introspectivo Lucius (Joaquim Phoenix), filhos respectivamente de Edward e Alice. Além destes, há o doente mental Noah (Adrien Brody) que é apaixonado por Ivy, que eivado pelo ciúme que ele tem de Ivy, acaba por ferir Lucius. Este acontecimento leva a jovem cega Ivy à busca de remédios para Lucius, entrando na floresta onde habitam “aqueles de quem não falamos” que são criaturas ferozes que aterrorizam a vila. Esta aventura da jovem se demonstra uma expedição de exploração nas verdades de sua comunidade.

Ao final do filme ficamos sabendo que os moradores da vila não estão vivendo no século XIX, mas no século XXI, e que o Conselho de Anciãos criou a lenda dos “Aqueles de quem não falamos”, como uma forma de controle, para que a população não saísse do perímetro da vila. Shyamalan ao desenvolver esta história nos coloca um nó na garganta e algumas questões: Será que é válido trocar liberdade por segurança? Será que o progresso sempre é bom? Será que a violência é sempre do outro?

A liberdade no filme é uma matéria sensível, que é sacrificada para que todos vivam em segurança, só que esse sacrifício é ocultado; os moradores da vila abdicaram, inconscientemente, de algo que nem conheceram. Escolher entre a liberdade e a segurança é uma decisão que implica dilemas e privações em nossos dias. A própria liberdade acaba nos jogando em uma prisão sem muros: a escolha. Escolher um caminho, é assumir riscos. Quando Sartre nos diz que estamos condenados a liberdade, podemos afirmar que a todo o momento queremos ser absolvidos da culpa de uma escolha. Mas o fato é que, deliberadamente, sacrificamos nossa liberdade para que tenhamos a liberdade de viver, por isso, escolhemos construir condomínios fechados com sistemas de vigilância para que a violência que existe nos outros não invada a nossa “vila”. Em sentido antitético, a nossa liberdade é restrita, confinada a liberdade delimitada territorialmente. E, em uma lógica perversa, prendemos os outros que estão do lado de fora, pelo lado de dentro.

A escolha dos líderes da comunidade da vila em ambientar a sua comunidade no século XIX foi uma estratégia de segurança, pois, a vida no século XXI é marcada por incertezas, pelo fluxo perpétuo (olha Heráclito de novo) e pela modernidade líquida descrita pelo sociólogo polonês Zigmunt Bauman, pois, o que era sólido desmanchou-se no ar. Bauman prevê uma sociedade sem consistência, fluida, na qual, a única coisa que se mantém permanente é a inconstância. Em um cenário controlado, a esperança era que as certezas voltassem, e que, de alguma forma, pudessem se proteger da desilusão da vida moderna. No século XIX, havia um clima de otimismo, as pessoas achavam que o progresso traria paz, saúde e conforto, que ninguém mais morreria de fome e que a tecnologia seria a nossa melhor aliada. Mas esse era o progresso imaginado, o progresso real foi e é diferente. E o que vimos foi a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o fortalecimento do fundamentalismo religioso, a bomba atômica, o nazismo e o neonazismo, a fome e as epidemias na África, o Holocausto e a Palestina. O progresso fez com que o Conselho de Anciãos voltasse ao passado, criando uma comunidade utópica para fugir de uma sociedade distópica, como a do filme Mad Max. O progresso nem sempre é bom, no caso de uma doença, por exemplo, quando dizemos que a doença progrediu, isso, invariavelmente, significa que o enfermo não está nada bem. Progresso real é apenas transformação, e como disse Oswaldo Montenegro “... as coisas se transformam e isso não é bom nem mau.”

A vida na vila parecia segura, pois, ao se isolarem do mundo, não havia riscos de uma contaminação com esse progresso real, violento e desumano. Ledo engano. A violência não veio de fora da vila, mas partiu de dentro, quando Noah esfaqueou Lucius. A Vila fechada hermeticamente, controlada por normas e leis rígidas, não protegeu os seus moradores de si mesmos. A cor vermelha, então proibida na vila, representava o sangue que eles não queriam ver em sua comunidade, representava a violência que pensavam estar fora do perímetro da vila. Temos medo do outro como se só o outro fosse capaz de agir com violência, e nos assustamos com a constatação hobbesiana de que o homem é o lobo do homem em qualquer lugar. Shyamalan é sarcástico ao colocar um doente mental (Noah) como o infrator, como o responsável de produzir a violência na vila, pois, só um desajustado para desobedecer a regra e não perceber a felicidade de uma vida controlada.

M. Night Shyamalan talvez não tenha feito um filme capaz de superar a sua obra-prima (Sexto Sentido), mas em A Vila, deixou sua contribuição com um trabalho altamente reflexivo, com uma fotografia bem cuidada e uma direção consistente. Vale a pena ver de novo o filme a Vila, ver e refletir no que o Shyamalan tentou dizer, nas questões implícitas e nas mensagens subliminares, pois dar outra chance ao filme é dar outra chance a si mesmo. Chance de vermos a nós mesmos, assim como a cega Ivy viu a verdade sobre a Vila. Chance de vermos como mudamos, pois somos este eterno vir a ser, esta metamorfose ambulante, que todo dia aprende a ser um Ser, ou pelo menos deveria.


CLAUDIO COSTA

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