cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

A CULTURA BECKY BLOOM OU A SOCIEDADE DO CONSUMO

Consumimos tudo a todo o tempo. Consumimos até a nós mesmos. Fim de ano é uma boa época para refletirmos sobre o que realmente tem valor.


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O fim de ano é uma época em que o comércio fica aquecido. Há um aumento de vendas em decorrência do tradicional hábito de presentearmos amigos e parentes no natal e nos famosos amigos ocultos. Mas, na verdade, durante todo o ano há datas que induzem ao consumo, consumimos o tempo todo. Seguindo nesta esteira, há um filme que retrata esta compulsão pelo consumo que está instalada em nossa sociedade, sociedade inserida nesta aldeia global capitalista. O filme é “Os delírios de Consumo de Becky Bloom” (2009), baseado nos livros da britânica Sophie Kinsella.

O filme conta a história de Becky Bloom (Isla Fisher) uma jornalista viciada em compras que acaba trabalhando em uma revista especializada em economia. Evidentemente, isso rende várias situações engraçadas. Mas o mais engraçado é observar que a sua compulsão já é uma pulsão naturalizada em todos nós. O consumo se tornou a panaceia para todos os males. O consumo supre o vazio da alma. O consumo é demonstração de afetividade, por isso, presenteamos as pessoas como prova de amor. O consumo se tornou via de inclusão, pois se não comprarmos as marcas e os modelos da moda, somos sumariamente excluídos do círculo social. O consumo se tornou prova de confiabilidade porque quanto mais compramos mais são abertas portas para mais consumo e mais somos respeitados e considerados como pessoas honradas, como se o comércio confiasse em nós como bons consumidores. É claro, que essa confiança se fortalece se não houver inadimplência. O consumo constrói a nossa autoestima.

O consumo é inevitável, mas o que torna o consumo um problema é a sua culturalização. Há um adestramento às normas impostas e inculcadas pelo sistema capitalista com todas as suas manobras ideológicas. E nós só sabemos (ou não sabemos) que uma ideologia é eficiente quando a classe mais prejudicada por essa ideologia se sente responsável pelo seu próprio infortúnio. É aquele sentimento de derrota que temos quando não conseguimos comprar aquele novo aparelho celular que custa o dobro do antigo aparelho e que tem praticamente as mesmas funções. A cultura do consumo já está instalada, porém, inverte a lógica freudiana, pois é o princípio do prazer que controla o princípio da realidade. Vivemos quase em uma sociedade hedonista, nós temos que saciar os desejos imediatamente; desejos que são insaciáveis. Neste momento, surge o mecanismo que viabiliza essa insaciabilidade, a obsolescência. Tudo que compramos hoje, amanhã já está ultrapassado, obsoleto e fora de moda.

O que devemos nos interrogar é sobre a necessidade de consumir certas coisas. Será que precisamos mesmo de um carro novo? Será que precisamos desse sapato ou dessa bolsa? Será que o nosso desejo de consumir parte da nossa vontade ou é fruto da vontade do fabricante (através da propaganda)? Na maioria das vezes, nós compramos coisas que não precisamos para atender necessidades que não são precisas. Como em toda a patologia devemos nos reconhecer enfermos para iniciar o tratamento, por isso, devemos nos perguntar sobre o que nos leva a comprar. Devemos admitir a nossa compulsão, que é a mesma da Becky Bloom. O filme é uma comédia leve, mas serve para refletir e, talvez, para que tentemos nos identificar com a personagem principal.

Agora surge o problema-mor, por meio dessa cultura de consumo, desenvolvemos uma reificação do ser humano. Ser humano-coisa que se tornou produto a ser consumido. Utilizamos a mesma lógica de propaganda comercial em nossas relações pessoais. No trabalho fazemos marketing pessoal vendendo uma imagem que, talvez, não tenhamos para conseguir uma promoção ou nos manter no emprego. Nos relacionamentos amorosos, também, vendemo-nos como um produto para agradar a pessoa amada. A verdade é que nos vendemos o tempo todo e para todos, e às vezes, até para nós mesmos. Isto permite que as relações se tornem extremamente superficiais. Se uma pessoa não nos atender mais, trocamos por outra que ofereça melhores condições... puro sentimento de mercado. E como consumidor, na maioria das vezes, compramos pela embalagem.

Fim de ano, época que muita gente usa para fazer uma reflexão. A proposta é assistir ao filme Os delírios de Consumo de Becky Bloom e, entre uma risada e outra, olhar pra dentro de nós mesmos e nos perguntar se vale mais a pena nos vender como produto ou nos doar como alma.


CLAUDIO COSTA

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