cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

A REDE: IDENTIDADE E PATOLOGIAS DA ALMA

O filme A Rede nos faz refletir sobre esta modernidade digital e sobre até que ponto a nossa própria identidade está se tornando virtual.


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Nossa identidade não nos pertence. Não somos o que queremos, somos o que querem de nós, ou melhor, queremos ser o que querem de nós porque o que querem de nós é o que os outros querem de si. Parece confuso e fica ainda mais confuso com o advento das mídias sociais. As informações partilhadas e compartilhadas, as amizades virtuais e instantâneas, a superficialidade e a efemeridade do nosso tempo aceleraram e aprofundaram o processo de despersonalização da nossa identidade e de fomento das patologias da alma.

A nossa era digital, conectiva e interativa, permite que todas as ansiedades e medos se projetem no ecrã do notebook, manifestamos on line nossas neuras e nossos traumas, expomos as nossas mediocridades e vaidades desmedidamente, gerando conflitos internos sobre o que devemos mostrar aos outros e o que nós não conseguimos esconder. Mas, além de um viés psicanalítico, a despersonalização que quero expor faz referência a uma entrega dos nossos dados pessoais, do que somos burocraticamente, ao mundo internético. Houve uma reinvenção da realidade na qual só existimos se formos decodificados em dígitos binários; nossa vida só é real se existir no virtual, todas as nossas informações estão disponibilizadas full time e com toda a acessibilidade. Há 20 anos um filme já nos mostrava como caminharia a humanidade, um filme que foi lançado em 1995, no mesmo ano em que Bill Gates nos apresentava o Windows 95 e ano em que chegava a internet ao Brasil: o filme se chama A Rede (The Net).

A Rede é um filme estrelado por Sandra Bullock e dirigido por Irwin Wikler, e conta-nos a história de Angela Bennett (Bullock), uma programadora de computadores que acidentalmente recebe um disquete que contém informações secretas, a partir daí, ela é perseguida por uma empresa criminosa com vários recursos tecnológicos, que é capaz até de mudar a identidade de Angela. Este poder descomunal dos computadores de interferir na vida das pessoas é o que torna a reflexão do filme interessante. O poder é tanto que Angela, no decorrer do filme, torna-se outra pessoa, a sua identidade é modificada, despersonalizada e transmutada. Evidentemente que a culpa de sua vida não existir para os outros é dela própria; o trabalho a isolava, e ela se isolava do mundo. A sua realidade era virtual, porém, a realidade virtual não nos pertence, no máximo, alugamos um espaço nela. Um espaço no qual nos fechamos, pensando que estamos abertos ao mundo; um espaço que cremos ter autonomia, mas é heterônomo; um espaço (um ciberespaço) que se mantém sob eterna vigilância do olho da providência digital, o olho que tudo vê.

A Rede traz a discussão, que na época estava só se iniciando, sobre a nossa crescente dependência em relação aos computadores, e nos alerta para possíveis manipulações e arbitrariedades do mundo informacional. O filme nos mostra que até a nossa identidade depende do mundo dominado por computadores; só que em 1995, falava-se de identificação civil, do controle dos nossos dados pessoais. Hoje, em 2015, falamos em identidade do ser. A nossa res cogitans e a nossa res extensa travam o embate no espaço virtual. A nossa identidade está cada vez mais mediada pelo imediatismo digital, o que só faz hiperbolizar as nossas velhas patologias da alma: Medo, inveja, recalque, ódio, paixão e vaidade em total striptease espiritual público, como diria Bauman.

O mundo contemporâneo exige a nossa permanente conectividade, temos que estar conectados o tempo todo, pois, corremos o risco de perdermos o emprego, as amizades, os relacionamentos amorosos e a nossa própria identidade. Nossos corpos parecem avatares de nossas identidades virtuais e os contatos físicos são excrescências de consciências digitais locadas em uma realidade desajeitada. Não somos mais o que fazemos, tentamos ser o que digitamos e caímos na armadilha de nos perdermos na distância entre o que não somos e o que queremos ser. Nossa identidade é um download que nunca carrega. Nossa identidade se despersonaliza quanto mais se viraliza na internet.

E para concluir, coloco mais peças naquele quebra-cabeça inicial. Não somos o que queremos, pois nem temos o controle do que queremos. O que somos são somas de quereres que achamos que queremos. A nossa identidade pertence à rede.


CLAUDIO COSTA

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