cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

AUTOSSABOTAGEM

Este é um pequeno conto sobre a capacidade que temos de sermos o nosso maior inimigo. Quantas vezes nós nos sabotamos?


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Eu sou paga para isso, não muito bem paga pra dizer a verdade. Este desconforto no caixote algumas vezes me irrita. São os ossos do ofício. Às vezes, parece que eu vou sufocar. É estranho se sentir menor do que na realidade é. É estranho se sentir estrangulada por si mesma. Não movo um músculo e esta imobilidade é quase transcendental. Fico quieta, e o silêncio me reveste de um passado não tão longínquo.

Lembro-me da última vez que eu vi Rodrigo, fiquei como eu estou agora, paralisada, muda. Eu não disse uma palavra, embora minha vontade fosse de gritar que eu o amava; minha vontade era de agarrá-lo e fazê-lo meu, como antes. Mas não, lá estava eu, estática, ouvindo sobre o seu relacionamento com outra pessoa. Parecíamos velhos amigos numa conversa despretensiosa, talvez para ele fosse. Este, aliás, é o meu maior defeito, nunca consigo transmitir o que eu realmente sinto. É como se eu estivesse amordaçada. Eu me sinto presa.

Sou o Etna, o Vesúvio, sob a calota polar. E eu sempre fui assim em tudo, não é uma exclusividade com relacionamentos. Desde pequena fui condicionando o meu corpo e a minha alma a se dobrarem e a se resignarem a dor, tacitamente. Muitas vezes, pessoas tinham uma impressão errônea de mim, simplesmente por eu não retrucar, por não esclarecer alguns pontos. Eu passava uma distância das coisas que não era real, eu não estava a quilômetros, eu estava a centímetros. Eu queria fazer uma errata e mostrar o que verdadeiramente penso e sou. E o que sou? O que sei é que as minhas costas doem e o meu pé direito está dormente.

Mas acho que no fundo eu gosto de ser assim. Como diz uma canção do Cazuza, “na dor há uma pontinha de prazer”. Eu chamo isso de autossabotagem. Por muitas vezes, deixei de viver momentos bons por estar encaixotada. Situação que eu mesma criava. Eu me saboto. Eu me encaixoto, por algum motivo alheio a razão. Mas, o pior desta trama maquiavélica, é que eu não me sinto culpada e é isto que é desagradável. Claro, que alguma coisa em mim dói, mas nada que eu não possa manter o sorriso. Eu queria, na verdade, mudar; esticar o meu corpo, ajeitar a coluna e andar.

Por enquanto, estou quieta, deixando o show prosseguir, tornando as pessoas felizes com o meu espetáculo. O meu silêncio são gritos de questionamentos, e quando falo eu mesma não ouço. Minha voz é uma débil esperança. Eu queria gritar pra fora e não pra dentro. Eu queria calar o Rodrigo naquele dia com um beijo e dizer que ainda o amo. Estou enredada em mim, por mim. Não sei se querer basta, mas eu preciso trocar de profissão. Preciso alimentar a minha vida com novas possibilidades. Chega de me encolher! Eu tenho que esticar o meu corpo, eu tenho que esticar a minha vida até estalar. Eu tenho que sentir culpa, pois a culpa liberta mais do que a verdade.

É gratificante levantar e ver toda a plateia me aplaudindo. Parece que ouço os pensamentos das pessoas; “mas como ela coube naquela caixinha?”, “ela não deve ter osso!”. Tenho ossos sim, e eles doem. Só que eu já me acostumei à dor. Vivo neste circo, mas o maior espetáculo da Terra seria ser eu de verdade, e deixar de lado esse meu eu sabotador, esse eu covarde. Mas o que importa agora são os aplausos sinceros e entusiastas. Neste momento, eu me sinto feliz. Neste momento, não me sinto tão pequena. Neste momento, não penso o quanto eu ganho ou quanto tempo ficarei com gelo no joelho. Também não penso quanto tempo ainda me resta pra fazer o que eu faço. Não estou velha, mas não posso trabalhar como contorcionista pra sempre, embora eu saiba que eu nunca deixarei de ser.


CLAUDIO COSTA

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