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CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

BRASIL LÍQUIDO: UMA TRANSIÇÃO COMPLICADA

Passamos por um momento de transição, em que o Brasil líquido escorre para um futuro incerto.Uma reflexão agora torna-se imprescindível.


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O Brasil está passando por um período de transição. O país está liquido sem uma forma que o defina. Os recipientes que abrigariam o país, também, estão líquidos, por isso, há essa confusão que não nos permite mais diferenciar o que é política, ideologia, partidos, Estado e democracia. Embora, estes elementos estejam intrinsecamente ligados, eles não são idênticos e cada um tem a sua ontologia.

POLÍTICA

Há muito tempo temos entendido a política como algo sujo, infame e que deveríamos manter distância para que não nos contamine. Mas a política é uma ação humana, então se a política é suja é porque somos sujos. Em uma abordagem aristotélica, podemos dizer que não vivemos sem política, pois somos seres políticos, desta forma, não adianta fugir, fugir seria nos afastar de nós mesmos. Atualmente, temos participado mais da política, mesmo segurando o asco; evidentemente que essa participação é ainda irreflexiva, ou pior, influenciada pela mídia que seleciona notícias que interessam aos seus empregadores.

A política que temos é o reflexo dos valores que cultuamos em nossa sociedade. Se os políticos são corruptos é porque cultuamos a corrupção no nosso dia a dia. Se temos uma política venal é porque valorizamos o dinheiro mais do que a ética. Como já foi dito, a política é uma ação humana e que atinge a todos os indivíduos, cientes disso ou não.

IDEOLOGIA

Alguns setores da sociedade tentam demonizar a ideologia, mas como tudo na vida, o perigo não são as coisas como são, mas o que fazemos com elas. A ideologia é necessária como a religião, é um instrumento que, bem utilizado, dá sentido a vida. E na verdade, todos nós temos uma ideologia, o grande problema surge quando impomos a nossa ideologia a outros, em um processo de hierarquização. Mas, o modo que eu entendo que a minha vida deve ser guiada não deve ser imposto a ninguém, no máximo, compartilhado. Estamos vivendo uma crise de ideologias, eu ouço o verso de Cazuza “ideologia eu quero uma pra viver”, como uma síntese de nosso desespero, pois, parece que nada deu certo, nenhuma ideologia funcionou. Lamento informar que algumas funcionaram, mas não foram as que esperávamos. Para alguns setores da sociedade, a ideologia comunista está em tudo, nas novelas, nas escolas, no preservativo feminino, no Papa, etc ... Melhor, estes setores acham que ideologia é um aparato só de esquerda. Lamento informar que ao ir contra a algumas propostas esquerdistas, necessariamente, esta reação parte de um conjunto de ideias que não são compatíveis com as ideias adversárias, e isso se chama ideologia.

PARTIDOS

Os partidos políticos deveriam estar vinculados a uma corrente ideológica, pela qual defenderiam as suas posições e ofereceriam a sua plataforma para que os eleitores se decidissem pela identificação ou não de sua agenda política. Deveria ser assim, mas o que vemos é um jogo de retórica sofista, no qual a ideologia que se oferece é apenas uma isca para conquistar os eleitores. Os partidos formam grupos que defendem os seus próprios interesses, mas que utilizam o combustível humano, o eleitor, para manter acesa a chama do poder. Mesmo com tantos pontos negativos, o partido político é necessário, porém, é preciso uma sociedade civil atenta e cônscia de seus direitos (e deveres) para cobrar, fiscalizar e controlar as ações dos partidos. O sistema político funciona como uma cadeia alimentar, no qual, nós alimentamos o partido e o partido alimenta o Estado, ou seja, o Estado é o que come.

ESTADO

Há discussões entre qual seria o melhor modelo de Estado: o estado máximo ou estado mínimo. No primeiro, defendido por socialistas, o estado é o provedor, não um Estado-babá, mas um estado que intervém na economia e que participa ativamente na sociedade. No segundo, defendido por liberais e neoliberais, o estado participa o mínimo possível e a economia se autorregula. O Estado, composto pelos políticos que alimentamos, e que utilizam o próprio estado como um organismo para viabilizar as suas aspirações financeiras, tornou-se um Estado avatar, um estado que tem uma forma democrática e representativa, mas que no conteúdo abriga os interesses de elites econômicas.

O Estado avatar é líquido e está no recipiente do mundo globalizado e, além disto, obedece ao curso natural do dinheiro e do poder. É o Estado que administra a nação, mas é a nação que escolhe o Estado e é este imbróglio que temos que resolver.

DEMOCRACIA

A democracia é hoje só um discurso. Um discurso que não admite refutação; um discurso antitético, pois, defende a liberdade e a igualdade, excluindo uma grande parcela da população destas benesses. A democracia está sacralizada, porém, não faz milagres, ou melhor, até faz, mas escolhe bem os seus contemplados. Nossa democracia representativa é hereditária e aristocrática, pois, eleição após eleição se sucedem no poder os mesmos clãs, as mesmas oligarquias dominantes ou oligarquias dissidentes como aconteceu no golpe de 1930, encabeçado por Vargas, que eram dissidentes, mas eram oligarquias. Temos uma democracia que funciona como um tapete para onde varremos todas as sujeiras da política.

Segundo Churchill, a democracia é a pior forma de governo, excetuando todas as outras; cabe a nós tornar o discurso da democracia em algo real, longe da falácia e do engodo. A democracia, por enquanto, é a pele de cordeiro sobre o lobo aristocrático.

TRANSIÇÃO

O Brasil está mudando, mas não sabemos para qual direção. Os donos do poder que detêm a força política, econômica e midiática usam e abusam dos seus ilimitados recursos para que a opinião pública se submeta aos seus desejos e planos. Este verdadeiro ataque orquestrado pelos donos do país ao governo propiciou um vácuo de poder na esfera política. Há, desta forma, uma corrida armamentista de ideologias com o intuito de conquistar o apoio do povo para que haja uma tomada de poder. Existe uma resistência, que vem de grupos que conseguem fazer uma leitura mais ampla do que está acontecendo, grupos que percebem que estamos perdendo pouco a pouco as nossas conquistas sociais, e até constitucionais, grupos que se utilizam de mídias alternativas para contra-atacar.

Toda esta batalha pelo poder suscitada pela polarização política parece ter fugido ao controle, despertando os sentimentos mais vis e degradantes do ser humano. Nas redes sociais temos um rol de ofensas, de discursos de ódio e de preconceito que saíram do virtual para a realidade das ruas, por isso, vemos agressões físicas por intolerância religiosa e sexual, e vemos linchamentos e misoginia explícita. Tenho medo do que o Brasil está se tornando.

O que os contendedores não percebem que quem tem que vencer esta batalha é o Brasil ou teremos uma vitória de Pirro, e o Brasil não é só dos donos do poder, é também do nordestino, do pobre, do favelado, do pequeno-médio empresário, do gay, de todos nós... Sei que a História é dotada de recuos e avanços, mas se não formos sensatos e críticos neste momento, corremos o risco de retrocedermos ao tempo em que um líder messiânico com um discurso nacionalista e de purificação, e aproveitando uma época de crise (aliás, crise vem do sânscrito Kri ou kir, que significa purgar, purificar), conseguiu mobilizar todo um país em torno de uma Alemanha nazista. Sabemos que a História nunca se repete, pois cada caso é um caso, mas qualquer coisa parecida com o que o que aconteceu na Alemanha, na Itália de Mussolini ou mesmo na Rússia de Stalin será uma tragédia para nós.

O Brasil está líquido, por isso temos que colocá-lo em um recipiente justo, solidário e firme para que ele possa manter as suas melhores propriedades.


CLAUDIO COSTA

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