cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

COMO ELIMINAR SEU CHEFE: O TRABALHO E AS PESSOAS

O trabalho é um local que, geralmente, está sob a égide do conflito, no qual há vários interesses em jogo. São tantos interesses que esquecemos do próprio objetivo do trabalho. Este artigo, inspirado nos filmes sobre o assunto, versa sobre as relações pessoais no trabalho.


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Os filmes Como eliminar seu chefe (1980) e Quero matar meu chefe (2011), embora separados por 31anos trabalham a mesma questão, o conflito entre chefe e subordinado, patrão e empregado. O local em que trabalhamos muitas vezes é um palco de guerra, no qual a rivalidade, a inveja, o egoísmo e a soberba imperam; um palco de conflito interclasse e intraclasse, onde não há harmonia e todos trabalham dentro de uma perspectiva que nos lembra Hobbes: a guerra de todos contra todos. Estes Dois filmes serviram de inspiração para a elaboração deste artigo que versa, justamente, sobre as relações pessoais no trabalho.

Hybris

Todo mundo busca equilíbrio, todos, pelo menos, concordam que devemos buscá-lo, é algo consensual. Mas o equilíbrio vem se tornando algo meramente utópico. E utopia, em sua concepção etimológica, significa “lugar nenhum”. Desta forma, raciocinamos que não conseguimos chegar ao equilíbrio porque ele não existe. Temos a impressão que só existe o que os gregos chamavam de hybris, ou seja, o desequilíbrio. A hybris é o excesso em alguma coisa, por exemplo, cuidar do corpo é algo necessário, só se preocupar com o corpo é um excesso, é vaidade, é a hybris.Mas é importante dizer que a dificuldade em se conseguir chegar a algum lugar não significa raciocinar que este lugar não exista. Embora o equilíbrio seja algo que exija uma dificuldade de acesso não quer dizer que não exista. O equilíbrio é uma conquista diária, pra não dizer constante, a todo o momento somos exigidos a buscá-lo.

Lidar com pessoas nos força a nos direcionar por esse caminho sinuoso do equilíbrio. Certas pessoas nos irritam, algumas pessoas nos incomodam, outras são intragáveis, e quando essas pessoas que não temos muito apreço estão confinadas conosco em um ambiente de trabalho, a hybris é o caminho mais curto para as relações. Seria maravilhoso trabalharmos em um ambiente em que só houvesse amigos de velotrol (expressão de uma amiga), ou seja, amigos do coração, amigos de verdade. O local de trabalho é um lugar de trabalho e não de fazer amizades, a lógica é essa, porém isso não impede de fazermos amizades no trabalho. Praticamente, as maiores e melhores amizades em fase adulta são iniciadas no trabalho. Inúmeros casamentos tiveram seu ponto de partida no ambiente de trabalho. Mas o objetivo no local de trabalho é realizar o trabalho propriamente dito. Não precisamos ser amigos ou casarmos com os nossos colegas de empresa, também não devemos ser indelicados ou ásperos com as pessoas que não temos muita simpatia. Devemos ter equilíbrio, e o equilíbrio consiste, nesses momentos, em termos respeito pelo outro e sermos justos.

Reciprocidade Empática

Respeitar o outro é o ponto de convergência entre várias religiões e correntes filosóficas. Muitos chamam de Regra de Ouro, outros de Ética da Reciprocidade, a nomenclatura não é importante, o que importa é tratar o outro como gostaria de ser tratado, assim de forma positiva, pois há algumas variações de definição que comporta a seguinte função: “não fazer para os outros o que não gostaria que fizessem com você”. Esta definição se mostra muito passiva e delibera uma inação que beira a omissão. Por exemplo, se há alguém com as vestes desalinhadas caído no chão, aparentemente se sentindo mal, eu não vou ofendê-lo e nem dizer que é uma pessoa que está alcoolizada, pois eu não gostaria que fizessem um julgamento precipitado de minha pessoa. Isto,com certeza, é uma atitude sensata, porém, uma atitude proativa e positiva seria tentar ajudar aquela pessoa que está caída, pois isso seria o que eu gostaria que fizessem comigo. A ação é a diferença. Isto se chama reciprocidade empática.

Muitos problemas seriam evitados se compartilhássemos da reciprocidade empática. A violência diminuiria, a intolerância diminuiria e as relações interpessoais nas empresas seriam bem melhores. Respeitar o outro e o serviço do outro, tendo como base de ação a regra de ouro seria o melhor mundo possível. Mas é uma tarefa hercúlea que recruta uma reeducação comportamental e uma análise dos próprios atos e pensamentos. Não estamos acostumados a realizar uma autoavaliação, pois isto pode implicar uma descoberta: “o errado pode ser eu”. Não gostamos de errar, não gostamos de reconhecer que estamos errados; sempre achamos os culpados que funcionarão como bodes expiatórios porque não podemos assumir a culpa; como disse Sartre o inferno são os outros. Os outros não são os inimigos, os outros são importantes até para a descoberta do nosso próprio eu. Cazuza na música Tudo é amor diz que “um homem foi criado só, mas vive em função do outro, na natureza onde ele é rei, no universo onde não é nada, na incerteza e no prazer, na ilusão de ser amado”. Precisamos do outro como referencial de nós mesmos. Não podemos agir como solipsistas (achar que só nosso eu existe). Temos que ter individualidade mas não ser individualistas. Há uma diferença sensível nisso, pois, ter individualidade é ter sua singularidade, é ter identidade, agora ser individualista é ser egoísta. Vivemos em sociedade, em coletivo, não pensar nos outros é, no mínimo, uma seletiva cegueira intelectual.

Patrão e Funcionários

As relações no trabalho não se dão apenas entre os empregados, mas, também, entre o patrão e os funcionários. E a fórmula do respeito ao outro continua imprescindivelmente ativa, contudo, o ser justo sobressai como qualidade primordial do patrão. O patrão, o chefe, osupervisor não precisam e nem devem ser pai, mãe, amigo confidente, parceiro ou qualquer coisa parecida, devem possuir senso de justiça. Neste momento o equilíbrio volta mais uma vez à ação, pois um dos símbolos da justiça é a balança que nos lembra (principalmente ao chefe) que devemos agir equilibradamente, com igualdade e ponderação.E não basta que o chefe aja com justiça, o funcionário tem o dever de reconhecer tal ato, por isso, é necessário haver a autoanálise. Nós só conseguimos ter um entendimento verdadeiro do que nos acontece quando – partindo de uma proposição hegeliana – saímos de nós, vamos ao outro e voltamos a nós trazendo dados com os quais podemos refletir, é um processo dialético. Não podemos alimentar uma ignorância narcisista, não somos o centro do mundo, não somos sempre vitimas;muitas vezes somos os algozes. Desta forma, quando o patrão age com justiça pode acontecer que nós sejamos os réus inconfessos.

O patrão, além do respeito e da justiça, tem que se atentar a um detalhe; ele não administra um negócio, ele administra pessoas e são essas pessoas que determinam se o negócio será bem sucedido ou não. A empresa é um avatar das pessoas que trabalham nela, desta forma, uma boa administração do pessoal resultará na otimização dos resultados. O patrão deve perceber que os funcionários não são coisas, não são números, mas são pessoas; por esse motivo a regra de ouro tem que se fazer presente, por esse motivo pequenas delicadezas que para o patrão são insignificantes podem gerar ingentes transformações na forma como o funcionário enxerga a empresa.Um elogio, um agrado, uma preocupação com a pontualidade das datas de pagamento de salários e de benefícios, são exemplos de como se pode acarinhar o empregado. Há uma grande quantidade de estudos que comprovam que saúde emocional (através da QVT-Qualidade de vida no trabalho) impacta na qualidade do serviço desempenhado pelos funcionários.

O patrão tem o direito e o dever de cobrar resultados, no entanto, deve ter cuidado para não se exceder. O excesso como já foi dito anteriormente leva a hybris, ao desequilíbrio, que é razão das instabilidades no âmbito laboral. É preciso muita sensibilidade do patrão, do chefe, do supervisor, dos que exercem algum cargo de liderança para perceberem a anima do grupo e de cada um dos funcionários. É um trabalho psicossocial e quase psicanalítico. Outro ponto importante é saber diferenciar o líder que lhe compete ter o cargo de liderança e o líder que não precisa de cargo para ter liderança. O patrão que almeja ser um bom patrão deve reconhecer a diferença e identificar essas pessoas, contribuindo assim para o crescimento da empresa. As pessoas certas nos lugares certos vitalizam, revitalizam e dinamizam os negócios da empresa. Só para lembrar: as firmas são feitas de pessoas e não de coisas.


CLAUDIO COSTA

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