cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

JOANA E O RIO DE JANEIRO: A AUSÊNCIA PRESENTE

A saudade é uma falta que marca presença no corpo e na alma. Este conto é sobre a ausência presente.


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Começou cedo. Fechei os olhos, respirei fundo e mergulhei. Era o décimo quinto dia sem Joana. O dia mais parecia um oceano viscoso e turvo, não podia recuar nem desanimar. Os músculos exauridos queriam desistir, o coração sofrido, encolhido, queria desaparecer e a alma pequena se perdia nas esquinas do corpo. Foi o dia mais longo da minha vida. Tudo me lembrava Joana, até as coisas que não estavam lá tinham o seu cheiro. É como a dor fantasma de um membro amputado. Estava quase me afogando em lembranças. Eu sempre fui solitário, mas nunca fui sozinho, sempre estava cercado por parentes e amigos. Mas, agora eu estou morando em outro estado e longe de todos. O que está mais próximo de mim é a saudade que eu tenho de Joana. Uma saudade sólida que está no meio da sala atrapalhando a passagem, que está no meio da garganta impedindo que eu fale, que está no meio de mim impedindo que eu viva.

Estava difícil a travessia do dia. Nadava contra uma correnteza de enganos. Agora que estou aqui percebo que não deveria estar. A oferta de emprego era praticamente irrecusável, o salário é o dobro do que eu ganhava no Rio de Janeiro, e isso pra começar, pois, após três meses, ao terminar o período de experiência, meu salário subirá ainda mais. Financeiramente, eu deveria estar aqui. Um amigo meu havia profetizado que se eu quisesse ganhar dinheiro deveria ir para São Paulo. E cá estou eu, mas meu coração não está aqui. Meu coração está nos braços de Joana. Meu coração está nas areias ardentes de Ipanema. Meu coração está na boca larga de Joana. Meu coração está na cerveja gelada em um bar da Rua Joaquim Silva, na Lapa; onde eu conheci Joana.

Os dias estão passando em uma agonia morosa. Ainda faltam seis dias para que Joana venha me visitar. Não vejo a hora de me livrar desta relação virtual, nossos carinhos estão sendo mediados pelas redes sociais. Preciso sentir o seu corpo, sentir o calor do Rio em sua pele, sentir toda aquela febre, sentir os 40º graus de alegria naquele sorriso incipiente. Joana aprendera a ser feliz comigo, antes de nos conhecermos ela cultivava uma tristeza quase congênita. Por isso, o seu sorriso era novo, um recém-sorriso que espero não ter se perdido pela minha ausência. O engraçado é que quando Joana deixou de ser triste, as suas amigas se afastaram; a principio, eu pensei que havia sido por causa de mim. Talvez, elas não tivessem gostado do meu jeito. Um simples suburbano namorando uma menina da zona sul. Mas era pior.

Ela está feliz e isto causa um intenso desconforto nas suas amigas. Como podem digerir esta felicidade de Joana? É inadmissível. Já estavam acostumadas às suas expressões sorumbáticas, ao seu sorriso tácito e soturno e àquele pessimismo imanente, ou seja, aquele estado de graça, no qual se encontra Joana, desmonta todo o arquétipo construído por suas amigas para definir a sua personalidade. As coisas, definitivamente, não se encaixam.

Nós temos este pérfido hábito de rotular as pessoas, de encaixá-las em um nicho previamente fabricado, decorado e selado por nós. Não admitimos a possibilidade de ocorrer mudanças, o roteiro da vida das pessoas que conhecemos não pode ter desvios, sob pena de uma parcial exclusão. Este caráter de imutabilidade que atribuímos às pessoas está diretamente relacionado com a nossa megalômana aspiração de controlar os fatos, as pessoas, o mundo. Agimos como se fôssemos deuses ou, no mínimo, que pudéssemos manipular as situações a nosso bel-prazer. Mas não é bem assim, primeiro, porque o nosso grau de influência esbarra na limitação do inopinado, no signo do livro-arbítrio; e segundo, e mais peremptório, as coisas nunca se movem do jeito que queremos, às vezes, nem nós mesmos conseguimos seguir a trajetória que planejamos. Carregamos, desta forma, esta veleidade como um carcinoma, que se espalha na alma e se reflete na atitude das amigas de Joana. Ela não percebeu e nem poderia, está distraída demais com aquele sentimento novo denominado paixão, para notar a insatisfação de suas amigas; está feliz demais para entender que é uma subversiva.

Eu despertei a felicidade de Joana, pois felicidade não se compra, não se busca, não se encontra, a felicidade se percebe, a felicidade se desperta como se estivesse o tempo todo presente, só que não tínhamos a habilidade para acordá-la. Eu e Joana percebemos a felicidade todas às vezes que caminhamos no Parque Madureira, no fim da tarde, quando o Sol suave e vermelho deixa um quadro impressionista no céu. Somos felizes quando nos damos conta que podemos ser felizes. Mas, neste exato momento, não me considero feliz, só a possibilidade de reencontrar Joana refrigera a minha alma e me anima a superar os dias que faltam.

Ela chegará, no mesmo dia em que haverá um eclipse lunar total, ou seja, quando a Lua entra totalmente na sombra da Terra. O detalhe interessante é que nesse dia a Lua não será vista, desta forma, haverá a celebração da ausência; em uma antítese barroca: a ausência estará presente. Este é o mecanismo da saudade. A saudade é a ausência presente. A saudade é a ausência que ganha corpo, é o que faz os centímetros se tornarem quilômetros, é o truque do desaparecimento que, na verdade, não sumiu, pois estava lá o tempo todo, assim como a Lua no eclipse: A ausência presente.

A chegada de Joana será o fim da saudade. Joana será a minha Lua sem eclipse, Lua do Mirante do Leblon, mas ela também é o meu Sol, Sol do Arpoador. Ela é toda Rio. Sua voz é uma bossa nova burguesa, seu andar tem um quê de Garota de Ipanema, o seu olhar samba no meu, como se fôssemos um par de dançarinos na Gafieira Elite, e o seu sorriso traz aquela felicidade permanente dos bares da Avenida 28 de setembro. Estou impaciente. Fecho os olhos e vejo Joana se aproximando com os braços abertos como o Redentor. E antes do esperado beijo, eu lhe direi que voltarei para o Rio, pois não consigo viver sem o seu amor presente.


CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante..
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