cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

O AMOR DE SR. & SRª. SMITH

O amor em Sr. & Srª. Smith nos revela as suas contradições e seus mistérios gozosos e dolorosos, no qual a felicidade não está na prateleira de alguma loja ou em um livro de autoajuda.


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Quando escolhemos alguém para entrar em uma relação amorosa, escolhemos a pessoa ou uma representação? Idealizamos tanto a pessoa que não conseguimos enxergá-la, esta pessoa não existe como conteúdo, mas como forma, feita de uma estrutura diáfana para que possamos ver o espelho. Sim, só enxergamos o que queremos e o que queremos é o nosso eu transgênico, simbolicamente modificado. Em Sr. & Srª Smith (2005), o casal vivia uma vida perfeita para os padrões da sociedade: belos, bem-sucedidos, educados e “felizes”. Felizes para os outros, mas não para si próprios. Aquela felicidade on line, superficial e caricata.

O filme protagonizado por duas lindas celebridades do cinema, Angelina Jolie e Brad Pitt, e dirigido por Doug Limann, o mesmo do já clássico Identidade Bourne, coloca-nos diante de um casal com problemas em sua intimidade, como a maioria dos casais de hoje em dia.

Eram um casal perfeito e perfeitos estranhos. Só se conheceram, realmente, quando destruíram as representações, os arquétipos, os kabukis; quando destruíram a casa perfeita, o carro perfeito e a vida perfeita. Descobriram-se assassinos, mentirosos, violentos e imperfeitos, e foram salvos por isso. Quando eles tentaram matar um ao outro, na verdade, mataram a segurança do modo de vida padrão, assassinaram as idealizações egoístas e a felicidade teleológica ... e pela primeira vez se viram. Lembro-me de uma crônica de Artur da Távola que diz: “... viver bem não é dar certo. Dar certo é ser capaz de prosseguir apesar do desacerto”, e ainda completa “Amar é apesar. Ë através. Ë a despeito, mas é com. Amar, às vezes, é contra, mas perto e fundo. Mesmo de costas. Ë malgrado. É com ferida e cicatriz, mas íntegro.”

Perdemos tempo procurando alguém que não existe para satisfazer algo que não precisamos. Colocamos então um personagem na cama e forjamos uma felicidade, na busca de uma aceitação de outros. Amar é mais do que parecer, amar é ser e estar; é ver além do próprio ser, é ser de alguém que não precisa ser de ninguém. Amar é conflito, é imperfeito; é enxergar o outro de verdade.

Sr.& Srª Smith faz de nós, os espectadores, na verdade terapeutas, pois as suas confissões são direcionadas a nós como se a qualquer momento fôssemos capazes de sugerir um procedimento e interferir na realidade deles. Mas o grande trunfo do filme é fazer com que a ficção dos personagens possa interferir na nossa realidade, isso se nós assimilarmos que o amor de John e Jane Smith não é de ficção, assim como o de Brad e Angelina.


CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante..
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