cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

OS SETE PECADOS CAPITAIS

Há 20 anos David Fincher fez uma interpretação dos Sete Pecados Capitais suscitando muitas reflexões. Este artigo pretende realizar uma nova reflexão sobre os sete pecados, fazendo uma atualização.


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Este artigo não pretende analisar o filme Seven (1995) de David Fincher, embora o filme nos forneça uma miríade de reflexões que estão explícitas em cada cena. A proposta é, a partir dele, transcender e filosofar sobre como os setes pecados nos dias atuais podem ser vistos, é uma atualização dos pecados inseridos nesta sociedade pós-moderna e globalizada

LUXÚRIA

Estamos vivendo no Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, no qual a busca do prazer supera qualquer superego, é a vitória do id, é a satisfação imediata como objetivo. É um projeto hedonista de sociedade, pois em tudo há a supervalorização do desejo, o desejo que provoca desejo de perpétuo desejar, transformado em mola propulsora de nossas atividades. Como diria Renato Russo, “pecado é provocar desejo e depois renunciar”. Não pode haver renúncia, não pode haver desistência do desejo, ou seremos, pra sempre, fracassados; e o fracasso é impotência sexual, o sucesso é masturbatório.

Temos que ter prazer e, atualmente, o gozo vem do consumo. Quanto mais adquirimos objetos, mais gozamos. A mídia nos encharca com propagandas, inculca-nos a necessidade do desejo, e com facilidade somos adestrados. Quase não há como fugir do desejo pelos objetos sexualizados ou como definiria Marx, pelo fetiche da mercadoria. A grande sacada é perceber que tudo se tornou objeto. A felicidade é um objeto. O amor é um objeto. A saúde é um objeto. A honestidade é um objeto. As pessoas são objetos. E o mercado criou a obsolescência, para que nunca nos saciemos, o tal desejo que deseja desejar. A infinita troca de algo que não atende mais o que jamais precisávamos pelo que nunca precisaremos. Estamos vivendo em uma sociedade de privados gozos públicos e de vazios coletivos.

INVEJA

No filme Conde de Monte Cristo, adaptação da obra homônima de Alexandre Dumas, há uma cena em que Mercedes relata a inveja que Fernand, que era rico e futuro Conde de Morcerf, tinha do seu amado e singelo marinheiro Edmond; ao ponto de, certa vez , Fernand invejar o apito que Edmond recebera, desprezando o seu próprio presente, um pônei, que valia muito mais. Mas o objeto da inveja de Fernand não era o apito, e sim, a felicidade com que Edmond recebera o presente; ele tinha inveja, também, do amor entre Mercedes e Edmond e da vida feliz que eles levavam.

Estamos acostumados a entender inveja como um desejo de ter o que o outro tem, principalmente, coisas materiais, mas é, na verdade, sentir tristeza pelo que o outro tem, ou como disse Tomás de Aquino: Tristitia de alienis bonis (tristeza pelos bens alheios). Esta alma mesquinha e competitiva nos faz tristes quando o outro encontra a felicidade, e como não podemos ficar atrás nesta disputa tácita, movimentamo-nos para que a toda hora mostremos o quão somos felizes, mesmo que não passe de fotos forçadas no facebook. Sob a vigência da economia de mercado, é o princípio da livre concorrência de felicidades. Forjamos uma felicidade para que não fiquemos tristes com a felicidade alheia.

A inveja é o nosso eu diminuído, é o reconhecimento inconteste da nossa inferioridade, por isso, é um pecado inconfessável. E, evidentemente, não gostamos desse sentimento, desta forma, não importa ser, o que importa é parecer ser. A inveja revela o nosso desprezo pelo outro e a incrível incapacidade de nos enxergar de verdade.

ACÍDIA

Estamos correndo o tempo todo: Pra onde? Pra quê? Estamos correndo. Somos Bolts na vida desesperados por algo. E a vida nos exige essa velocidade. Corremos para ter sucesso profissional, para ser belos esteticamente, para encontrar o par ideal, para ter a casa dos sonhos, para conseguir a felicidade. Não podemos nem devemos ficar tristes, a nossa sociedade da medicalização já cuidou disso. Tristeza é doença, doença causada pela própria sociedade. Corremos tanto que quando paramos, copiamos aquele desenho em que o coiote percebe que acabou o chão só quando para e olha pra baixo, avistando o imenso vazio e a inevitável queda. Os tristes, os depressivos, enxergaram esse vazio e estão em queda livre.

Talvez a Igreja deva reativar o pecado da acídia que havia sido substituída pela sua filha preguiça, devido às demandas do espírito capitalista. Em nossa modernidade líquida o pecado da acídia está mais ajustado, pois a ditadura da felicidade insere este novo velho pecado, que tem a ver com tristeza, desânimo espiritual e falta de vontade de acreditar, na lista dos pecados capitais. Temos que ser felizes, mesmo a base de ansiolíticos, paroxetina e correria. Mas será que só controlando a dopamina e a serotonina seremos felizes? O número de suicídios aumentou 60 % nos últimos 45 anos (dados da OMS), todo dia alguém se mata, todo dia alguém olha pra baixo e vê o vazio.

Não podemos seguir esse ritmo louco, a vida não é um fast food, temos que saboreá-la no tempo certo.

AVAREZA OU OSTENTAÇÃO

Geralmente, associamos a avareza a um desmedido apego às coisas materiais, porém, este pecado capital não se limita à filargíria, ao possuir, ao ter, não se limita à retenção de quaisquer bens. Este pecado consiste, também, em se comportar perdulariamente, pois, não basta só ter, mas tem que parecer ter, e todos têm que saber que temos. Hoje, o ter é ser. Partindo deste raciocínio seria interessante substituir a Avareza por um pecado com upgrade, o Pecado da Ostentação.

O desejo de acúmulo de riqueza permanece intacto, pois, ele nos permite sermos o que todos querem ser, o que todos foram condicionados a acreditar que seria o objetivo de vida. As demonstrações de riqueza, a ostentação propriamente dita, estão no ato de gastar e não de acumular, é gastando hiperbolicamente que mostramos que podemos gastar; o parecer ter é o parecer ser. E tudo se passa no ciberpalco em nossa Sociedade do Espetáculo. A Ostentação nos leva a coisificação dos sentimentos e das pessoas. Temos relacionamentos mediados pela lógica do mercado, o que sentimos tem influência do índice Dow Jones e sofre com o câmbio flutuante. As pessoas são avaliadas após a análise de sua depreciação em dólar.

Se cairmos neste pecado, seremos menos do que somos e não valeremos o que temos.

ÓDIO

Estamos habituados a nos associarmos a pessoas que nos ofereçam alguma utilidade; utilidade não como previa Stuart Mill ou Bentham, mas uma utilidade idiossincrática, que nos favoreça de alguma forma. Destarte, as nossas ligações interpessoais derivam do desejo de benefício próprio, atribuindo assim, valores de afetividade a quem se encaixe às nossas demandas. Valorizamos quem nos elogia, quem nos ajuda, quem nos diverte e quem contribua para nossa satisfação. Levando este raciocínio em sentido oposto, temos a constatação de que sentimos ojeriza a quem não atende às nossas necessidades hedonistas. E com facilidade transformamos o sentimento de aversão em ódio. Sim, odiamos com facilidade, odiamos o que e quem nos contraria, quem impede a nossa satisfação. Odiamos quem não pensa como nós, quem não age como nós.

Odiamos quem não vota igual. Odiamos quem não tem a mesma orientação sexual. Odiamos quem não tem a mesma cor de pele. Odiamos quem mora em comunidades. Odiamos quem não segue os padrões de beleza. Odiamos quem gosta de funk, de macaxeira e de maconha. Odiamos quem não torce pelo mesmo time que nós. Odiamos quem não acredita no que acreditamos. Odiamos quem é pobre. Odiamos quem é rico. Odiamos quem se interpõe entre nós e a felicidade que acreditamos estar na outra margem. Odiamos quem não nos beneficia e quem é diferente. Odiamos tanto e tantos que, talvez, tenhamos satisfação no ódio.

Odiamos porque temos medo, e odiamos ter medo. Abrimos mão até da liberdade para não sentirmos medo. Temos medo do outro porque o outro pode estar certo e nos desestabilizar, pode nos tirar da nossa zona de conforto, pode estragar a nossa felicidade idealizada, pasteurizada e embrulhada para consumo. Odiamos o outro, sobretudo, pela grande ofensa de nos lembrar que ele é igual a nós.

GULA OU GOURMETIZAÇÃO SOCIAL

O pecado da Gula, hoje, não consiste em comer ou beber demais, até porque o excesso na alimentação inviabiliza que as pessoas cheguem aos padrões estéticos e sociais em vigência. O problema não está mais na quantidade, mas na qualidade, qualidade esta que suscitou o termo gourmetização. Comemos e bebemos pratos e bebidas refinados como um processo de espetacularização, no qual, conferimos valor a um status elevado (adquirido ou atribuído) dentro de uma proposta de estratificação sócio-econômica. Tiramos fotos em restaurantes badalados porque estamos inseridos em uma competição on line, tentando engolir o outro.

Fazendo uma releitura da Gula, encontramos o pecado, justamente, nesta desmedida necessidade de engolir o outro, de solapá-lo, de ser e de estar em melhor condição, como se estivéssemos sempre em uma disputa. E estamos cada vez mais insaciáveis, nossa fome não respeita ética, compreensão e solidariedade. Nossa fome de sermos o que achamos que os outros esperam de nós pode nos consumir, como aconteceu com Erisictão. Nossa fome não pretende atender a uma necessidade física, mas social. Somos antropofágicos sociais. O paladar não está mais nas papilas gustativas, mas nas “curtidas” do facebook.

Na mente a canção ecoa: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?” A gula poderia ser uma fome de justiça, de bondade e de dignidade ou uma sede de altruísmo, de esperança e de amor ... e tudo com temperança, pois, pecado é excesso.

NARCISO

Não conseguimos evitar, por mais que tentemos, temos o hábito de comparar. E hoje com todas as tecnologias e redes sociais disponíveis, o hábito da comparação se tornou epidêmico, e esse pathos sociológico está externalizando as confidencialidades. Comparamos a nossa casa, a nossa roupa, o nosso cônjuge, comparamos até o que comemos, comparamos a nossa felicidade. Se perdermos na comparação, nós imediatamente invejaremos e/ou minimizaremos a superioridade alheia. Se ganharmos, jactaremo-nos poderosos, mas simulando modéstia para não perder amizades. Na verdade, nunca queremos perder na comparação, queremos ser melhores em tudo (campões em tudo, como disse Pessoa), mas para isso, temos que viver em função do outro e é nesse momento que surge o nó górdio. Quando fazemos algo pra nós pensando em nossa satisfação, é orgulho; quando fazemos algo pelos outros pensando em nossa satisfação, é vaidade. Nas duas hipóteses a nossa satisfação é o ponto em comum, é o objetivo. Somos demasiadamente individualistas e egoístas, pois até quando podemos ser solidários, só somos porque esperamos reconhecimento (divino ou social). Quando fazemos sexo com uma pessoa não queremos que essa pessoa tenha orgasmo para seu prazer, mas para a nossa própria realização, ou seja, o gozo que proporcionamos é a chancela de qualidade do nosso sexo. O outro só existe para alimentar o nosso eu narcisista.


CLAUDIO COSTA

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