cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

POR QUE MATAMOS CRISTO E VOTAMOS EM HITLER?

Por que continuamos a matar Cristos e a votar em novos Hitlers? O que alimenta as nossas escolhas? Será que somos livres pra decidir? Este artigo aborda uma das várias possibilidades de resposta.


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Há um jovem judeu revolucionário que insiste em afirmar que o judaísmo está seguindo em direção errada. Ele estava fazendo algumas reuniões que, cada vez mais, contava com mais participantes, e até de não judeus; suas passeatas atrapalhavam o trânsito de pessoas de bem que querem trabalhar e que pagam impostos. Pensando bem, eu nunca vi esse revolucionário barbudo trabalhar. Dizem que ele é pastor, só não sei se é um bom pastor. Eu conheço bem o tipo: se diz milagreiro, discursa com eloquência e promete o céu. O que eu sei é que ele foi preso, e como sabemos, ninguém é preso à toa. Esse rapaz deve ser perigoso mesmo, pois, preferiram libertar um ladrão e assassino (alguns dizem até que foi pego na operação Zelote) a soltar este comunista. Por isso, sou do ditado: bandido bom é bandido morto. Apoio totalmente a morte deste subversivo, se deixarem ele cria outra religião ou outro partido...já não chega todos esses que existem por aí?

Em contraponto tem um político que me agrada muito, este talvez possa mudar o mundo. Como posso descrevê-lo? Bom... ele é um líder nato, defende a construção de um país forte sem a influência comunista (embora tenha flertado com o comunismo no início da carreira), pretende gerar um milagroso crescimento econômico através do apoio à industrialização e estímulos às empresas privadas. Uma das estratégias é dar isenção de impostos às empresas para que aumentem o número de empregos. Ele acredita que uma nação soberana passa por um ingente reequipamento das Forças Armadas (inclusive, já foi militar) e não é favorável a inserção de estrangeiros em nosso país. Em sua gestão a polícia será valorizada e respeitada.

Na vida pessoal, ele é um amante das artes (pintor nas horas vagas), gosta de escrever poesias, adora livros e possui coleções completas de Shakespeare, Kant e Goethe. Este político é um incansável defensor dos animais, principalmente, cães. Pode-se dizer que é um gentleman, trata bem às mulheres e passa segurança (e até medo) aos homens. Amante da Sétima Arte tem como filmes preferidos Metropolis e King Kong. Muito bem humorado, nas horas que pode (já que é um workaholic) ouve Tchaikovski, Richard Wagner e o violinista judeu Bronislav Huberman para relaxar e se descontrair. Este líder é um estrategista e sabe muito bem escolher os seus subordinados, é ótimo em administrar pessoas. Com certeza, votarei nele.

Este artigo até aqui tem sido narrado na primeira pessoa, mas, na verdade, este narrador é um personagem. A intenção é passar uma visão de alguém que tem opiniões bem particulares e firmes. O personagem-narrador deixa claro que apóia a execução de um subversivo religioso e defende um líder político apontando-lhe uma miríade de qualidades positivas. Porém, o subversivo religioso é Jesus Cristo e o político é Adolf Hitler. Nosso personagem-narrador não está sozinho em sua posição, muitas pessoas continuam crucificando Cristo e votando em Hitler. Por que fazemos isso? A resposta não é fácil e nem única, pois seria reduzir demais algo tão complexo. Dentre as possibilidades de resposta, uma em especial vai ser desenvolvida neste artigo e que pega emprestada uma teoria de Noam Chomsky, utilizada para entender a realidade estadunidense, mas que pode ser aplicada em qualquer lugar do mundo: a Fábrica de Consenso.

A Fábrica de Consenso é uma forma de controle através dos meios de comunicação, que nos inculca informações que convergem com vários interesses envolvidos, interesses das elites. No caso específico deste artigo, podemos pensar que a nossa opinião é moldada por informações selecionadas, construindo as imagens de determinadas pessoas, imagens que favoreçam certos grupos. Afinal, ninguém enxerga as pessoas na essência, enxergamos só a imagem, ou melhor, a imagem construída. Se for interessante apresentar Jesus como um encrenqueiro, um marginal, a mídia construirá essa imagem e nós assimilaremos e reproduziremos mimeticamente. Se for interessante glorificar alguém como Hitler, ele será bem recebido por todos nós.

A verdade é que não vemos a realidade, só vemos o discurso. É possível montar uma grande farsa inserindo grandes verdades. É a mesma lógica da maquiagem, podemos pintar um rosto escondendo as imperfeições para ressaltar os pontos positivos deste rosto através de blush, corretivos, delineadores e rímel. O discurso é a maquiagem que embeleza alguns e demoniza outros; e este discurso é preparado pela mídia. Ou seja, a grande farsa é uma verdade maquiada e a realidade é o que nos mostram e não o que procuramos.

O discurso e a imagem são tão bem construídos que eles já vêm com um mecanismo de defesa. Tudo que for dito em oposição ao constructo imagético é rebatido com o discurso do antidemocrático; aliás, a democracia é o instrumento mais bem empregado para sustentar tiranias. E mesmo que a pessoa que tenha a sua verdade maquiada positivada faça algo condenável, este ato enquadrar-se-á em uma postura aceita pelos que já aceitam a postura dessa pessoa. Desta forma, o próprio padrão de valores se altera para legitimar esta pessoa. O mal que essa pessoa faz é justificado automaticamente, simplesmente, por identificarmos (inculcação) nela a imagem da cordura. Ou seja, qualquer mau ato será interpretado como uma boa ação. Quando a mídia quer detonar uma pessoa, a lógica se inverte, tudo que o “proscrito” tente fazer de positivo será interpretado como uma má ação.

Jesus e Hitler foram utilizados como exemplo por conterem grande força simbólica, mas este processo se repete a todo o momento com pessoas menos expressivas. Imagens são construídas, ou destruídas, sem que raciocinemos como isso acontece e a quem beneficia. Temos que estar atentos e despertar o nosso senso crítico... e sempre, sempre desconfiar do consenso, pois, talvez, o consenso seja apenas um produto.


CLAUDIO COSTA

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