cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

SEM VESTÍGIOS E O MAL VIRTUAL

A internet pode ser um bem ou pode ser um mal. Este artigo versa sobre o mal virtual.


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Sem Vestígios é um filme de 2008 que não teve muita repercussão na mídia, não foi indicado ao Oscar e não era recheado por celebridades de Hollywood. O filme foi estrelado por Diane Lane e dirigido por Gregory Hoblit, com um baixo orçamento não foi um sucesso de bilheteria, mas apesar de todo este cenário desfavorável, o filme gera algumas reflexões que serão expostas neste artigo. Aviso: contém spoiler.

Sem Vestígios conta a história de um serial killer ao estilo de Jigsaw dos Jogos Mortais que utiliza aparelhos para assassinar as suas vítimas, porém, o assassino do Sem Vestígios condiciona a morte de suas vítimas ao número de acessos ao site que ele criou (www.killwithme.com), quantos mais se conectarem, mais rápido a pessoa escolhida para o espetáculo de horror morre. Para desvendar o caso, a agente do FBI especialista em crimes na internet, Jennifer Marsh (Diane Lane), e o seu parceiro Griffin Dowd (Colin Hanks) se envolvem em perigosas situações que podem afetar as pessoas que lhe são bem próximas.

Algumas questões podem ser exploradas com esse filme. Uma desponta mais nitidamente, que é o doentio prazer de ver alguém morrer. Embora vivamos em uma cultura ocidental cristã, estamos presos aos gregos. Esta mórbida curiosidade é uma louvação à Tanatos, rendemo-nos a uma pulsão de morte seguindo a uma exegese freudiana. Quantas vezes paramos o carro para ver um acidente na estrada, não se importando com o engarrafamento que poderá ocasionar? O prazer de ver um cadáver não tem preço, o prazer de ver a morte, e como diria Cazuza “Eu vi a cara da morte e ela estava viva – Viva!”. Se nós somos cadáveres adiados como diz Pessoa, possivelmente, o desejo de ver a morte é o desejo de ver o futuro, pois, como conclui Freud, objetivo de toda a vida é a morte. No filme, milhares de pessoas acessaram ao site para ver outras pessoas morrerem como se esta visão despertasse o sistema de recompensa em seus cérebros, produzindo dopamina para suas vidas entediadas e entediantes.

Outro aspecto relevante do filme é fazer pensar como o mundo das informações rápidas, que é o mundo da internet, atrai-nos. Recebemos informação a todo o momento, mas cada vez menos temos a capacidade de selecionarmos o que presta e o que é lixo. Relativistas dirão que tudo é relativo. Sim, tudo é relativo, até o relativismo é relativo (aqui cabe uma brincadeira com a Lógica e com os relativistas: uma dupla afirmação gerou uma negação). Há coisas que nos fazem mal, peremptoriamente, e não contribuem para um crescimento mental saudável. O excesso de informação nos desperta o desejo de mais informação nova em um processo que se retroalimenta viciosamente. E é neste ponto que vale um momento a mais de reflexão. O novo não nos saciará porque “o novo sempre vem”. Cultuamos o novo, os novos, em detrimento do velho. Invertemos uma lógica que nos era bem salutar. Antes obtínhamos informação para gerar conhecimento, que com o tempo se transformava em sabedoria. Hoje achamos que sabedoria é ter informação. Desprezamos o conhecimento e o tempo de maturação para nos tornarmos sábios, atualmente somos cadáveres adiados e néscios. Desprezamos o velho e os velhos, nós os afastamos, nós os jogamos em asilos, em caixões sobre a superfície, isolamos nossos velhos de nós; como se não fossem capazes de nos ensinar alguma coisa. Queremos o novo que vem do facebook, do whatsapp, do twitter e de qualquer outro veículo de informação que informa, desinforma e nos põe em uma fôrma digital.

Mais um ponto para pensar é que no filme todas as pessoas que acessam ao site contribuem para a morte da vítima, mas mesmo sendo avisadas disso, as pessoas continuam acessando, conscientemente, tornando-se cúmplices de assassinato. Hanna Arendt ao acompanhar o julgamento do nazista Eichmann cunhou o termo Banalidade do Mal para explicar que a culpa não era especifica deste nazista, mas do sistema. Hoje temos o Mal Virtual, aquele que praticamos sem termos sobre os ombros o peso da culpa, pois, embora imaginemos os danos que fazemos potencialmente as outras pessoas e, principalmente, os danos que fazemos a nós mesmos; nós não nos importamos. Ainda utilizando como referência o holocausto, este mal sem culpa é o mesmo que levou os nazistas a construírem as câmaras de gás (algumas produzidas pela Siemens com a utilização de mão escrava judaica) para evitar derramamento de sangue. O sangue suja, o sangue mancha, o sangue gera culpa. A câmara de gás, assim como a internet, é limpa e suave. O Mal Virtual não parece real, não há sangue, mas é muito real, pois a realidade já é virtual. As ofensas, os delitos, os crimes virtuais são reais. A depressão, o sexo e o vício na/da internet são reais. A realidade não é mais do corpo, do toque; a realidade agora é do touch screen, da superficialidade e das intermináveis informações sem conhecimento. A realidade sem sabedoria.

Sem vestígios dá a dica: quando o mundo virtual nos engole e nos martiriza, a saída é recorrer a velhas fórmulas. No caso específico do filme, o código Morse. “O novo sempre vem”, mas não precisamos nos esquecer do velho. O passado faz parte do presente e do futuro sempre.


CLAUDIO COSTA

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