cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

UM ELOGIO À MENTIRA

A mentira julgada e condenada por todos merece uma defesa. Este pequeno artigo expõe as virtudes da mentira, e nos deixa a dúvida: será que a mentira e a verdade são incompatíveis?


liar liar.jpg

O filme O Mentiroso (1997) estrelado por Jim Carrey, que dá vida ao personagem Fletcher Reed, conta a história de um advogado mitômano que se vê impedido de mentir por um dia inteiro, devido a um pedido mágico do seu filho. Evidentemente, isso causa uma grande confusão na vida de Fletcher, o que garante muitas risadas durante o filme.

O filme se desenrola e ficamos com aquela questão, será que é possível viver sem mentir? A mentira é defenestrada pelas religiões abraâmicas, na Bíblia há várias referências ao ato de mentir, por exemplo, em Provérbios 12:22 temos: “Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor, mas os que agem fielmente são o seu deleite”. No budismo, também, há restrições em relação à mentira, que é uma violação aos preceitos budistas, gerando um carma negativo. Mas a própria religião é considerada uma mentira para os céticos, para os ateus, uma mentira que reconforta bilhões de pessoas. Então, a mentira é um bem ou um mal?

Temos o hábito, ou melhor, a necessidade de conceituar, rotular, definir e classificar para conseguirmos entender o que nos cerca e o que sentimos. Somos biologicamente maniqueístas, somos seres binários, simplificamos tudo. Reduzimos as complexidades da humanidade em bem ou mal, certo ou errado, direita ou esquerda, anjo ou demônio... mentira ou verdade. Nada é só uma coisa ou outra, tudo é multi e simultâneo. A mentira é o mal e o bem juntos, e é, também, alívio, respeito, dor, decepção, liberdade, traição e proteção. A mentira pode significar muitas coisas e pode ter muitas funções, e muitas vezes, desempenhar as mesmas funções da verdade.

No budismo, a mentira pode ser aceita se fizer mais o bem do que o mal, a chamada mentira de conveniência, desta forma, ela não fere o preceito. Quando mentimos para alguém em relação a algum diagnóstico médico negativo, talvez estejamos salvando essa existência, dando-lhe uma expectativa de vida. Em alguns casos, quando mentimos proporcionamos mais felicidade do que falando a verdade. A mentira contribui para a vida social, para os relacionamentos amorosos e para o sucesso profissional. Mas tudo depende da dosagem. Não podemos gerar um desequilíbrio, ou uma hybris como dizem os gregos, pois é o excesso que transforma a virtude em pecado.

É a mentira que desperta a imaginação e refrigera a alma. É a mentira em forma de ficção que nos faz viajar nas páginas de um livro. O Bentinho de Machado, a Alice de Carrol, o Ivan de Dostoiévski, a Macabéa de Lispector e a Lady Macbeth de Shakespeare nunca existiram, mas sempre viverão no coração dos amantes da literatura. É a mentira que nos deslumbra na Sétima Arte, que nos faz entrar na Fábrica de Chocolate, no mundo distópico de Mad Max, no futuro sombrio de Blade Runner, na viagem do tempo do De Volta Para o Futuro e na singela, mas divertida comédia O Mentiroso.


CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @obvious //CLAUDIO COSTA