cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

2012 E OS REFUGIADOS DO APOCALIPSE CAPITALISTA

O filme 2012 nos ajuda a refletir sobre o atual drama dos refugiados. A Europa e as grandes potências mundiais são a salvação ou a causa do que acontece hoje?


REFUGIADOS.jpg

Em 2009 foi lançado um filme que fazia referência ao calendário Maia e que profetizava o fim do mundo no ano de 2012. O filme 2012 foi dirigido por Roland Emmerich, que tem outro filme apocalíptico em seu currículo, O Dia Depois de Amanhã, a película conta com a participação de John Cusack, Amanda Peet, Danny Glover, Thandie Newton e Chiwetel Ejiofor. Há algumas cenas do filme que merecem reflexões, uma em especial, remete-nos ao drama dos refugiados da África e do Oriente Médio.

Quando vários países constroem ingentes navios, chamados de Arcas, para abrigarem pessoas previamente selecionadas de um fim do mundo iminente, pessoas comuns se amontoam em frente das embarcações implorando para entrarem no que pode ser a salvação de suas vidas. Na tragédia real contemporânea, as arcas do filme representam a Europa, território utópico para os refugiados que fogem da distopia de seus lares originais, lares conspurcados pela intervenção do capitalismo globalizado que a própria Europa cultua.

De tempos em tempos, observamos na História vários processos migratórios, alguns foram exaltados pela nossa história eurocentrista, como o fluxo de europeus que se deslocaram para a América; outros foram execráveis, como a vinda compulsória de africanos, também para o continente americano; estimativas giram em torno de 11 milhões de africanos que foram retirados das suas terras para serem brutalmente escravizados em terras de além-mar. Houve, também, o processo de Diáspora Judaica até a criação e a ocupação do Estado de Israel. Mas as migrações que vemos atualmente são uma consequência natural e quase inevitável do tipo de capitalismo vigente. Os países de origem dos refugiados foram afetados pelo jogo geopolítico e econômico das grandes nações capitalistas. No Congo, a ganância das poderosas corporações pelos seus recursos naturais, como o nióbio, o coltan, o cobalto, além dos diamantes, transformou o país em um interminável palco de conflitos e violência. A França e a China indiretamente disputam o recém-descoberto petróleo da República Centro-Africana. O temido Estado Islâmico ganhou força com o enfraquecimento do Iraque após a intervenção autoritária dos EUA e das tentativas de desestabilizar o governo de Bashar al-Assad, por parte dos anglos e estadunidenses.

As desigualdades sociais, econômicas e políticas do mundo são o evento cataclísmico de nossos tempos. A escatologia capitalista é a hipótese do deslocamento polar. Os terremotos são o controle monopolista dos financistas que atuam no mercado financeiro. O tsunami das redes de poder é o que faz com que crianças, como o sírio Aylan, morram afogados na inocência que os seus pais têm de encontrar algum conforto nas linhas inimigas. Os países europeus são as arcas que têm que decidir se abrem ou não as portas. Os líderes mundiais no filme decidiram receber a numerosa população desesperada, depois do discurso eloquente e comovente do cientista Adryan Helmsley (Chiwetel Ejiofor), mesmo colocando em risco a segurança das arcas. No mundo real, a foto comovente e eloquente de Aylan fez com que se discutisse com maior profundidade a questão dos refugiados. As portas foram e estão sendo abertas com todo o receio de danificar a arca.

Todos os dias Aylans crianças, Aylans adolescentes e Aylans adultos morrem na tentativa de chegar a uma Europa utópica, mas o busílis reside no fato de que a Europa que os refugiados desejam não existe, não é a terra dos sonhos. A Europa que os refugiados encontram, na verdade, é uma heterotopia foucaultiana, o lugar do outro em um espaço simultâneo, porém, heterogêneo, um lugar para aqueles que a sociedade não aceita e, por isso, vivem à margem. E os refugiados têm que lidar com a xenofobia, com a intolerância religiosa e com o medo dos europeus de perder espaço dentro do seu próprio país. As arcas com os portões abertos não solucionam o problema do fim do mundo. É preciso mudar o sistema que cria os refugiados. É preciso mudar os valores e criar alternativas para que possamos combater este capitalismo predatório que provoca as desigualdades e os cataclismos de nossa época. 2012 deixou um recado de cooperação e entendimento na adversidade, uma redenção a segundos do apocalipse. Não devemos deixar chegar tão perto do fim para agirmos, a humanidade tem que ser mais humana e olhar o outro com respeito e compaixão.


CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @nopub //CLAUDIO COSTA