cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

CARRIE E UMA SOCIEDADE DE ESTRANHOS

Carrie, a estranha, é um resultado da nossa época, da nossa sociedade. A violência entre os jovens é um sintoma de um mundo doente.

Aviso: Contém spoiler.


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O filme Carrie a Estranha, de 2013, baseado no livro homônimo de Stephen King, já havia sido levado às telas, em 1976, pelas mãos do diretor Brian de Palma, o mesmo de Intocáveis e Dublê de Corpo. Nesta versão, dirigida por Kimberly Peirce, que esteve à frente do fabuloso “Meninos não Choram” (1999), podemos analisar o filme em um contexto de violência entre jovens nas escolas dos EUA.

São inúmeros os casos em que ocorrem verdadeiros massacres nas escolas e universidades estadunidenses. Em 1966, um estudante da Universidade do Texas, que era também fuzileiro naval, Charles Whitman, matou 13 e feriu 31 pessoas, sendo morto pela polícia. Em 1999, houve o massacre na High School Columbine, onde dois jovens fortemente armados, mataram 13 pessoas e depois se suicidaram. Esta tragédia se transformou em um documentário realizado por Michael Moore, Tiros em Columbine, que lhe rendeu um Oscar. Já em 2007 o sul-coreano Cho Seung-Hui, estudante do Virginia Polytechnic Institute and State University, atirou em seus colegas matando 32 pessoas e logo após se matou.

Na maioria dos casos, os school shooters, ou seja, os atiradores, são jovens estudantes que sofreram algum tipo de bullying. Mas não é só isso, não é só o bullying a causa de tanta violência, existem outros fatores que são relevantes neste processo. A adolescência é um período muito conflituoso, no qual, o jovem passa por muitas mudanças. O corpo muda, a voz muda, as exigências aumentam e a cabeça tenta assimilar todas essas reviravoltas. No filme, Carrie White (Chloë Grace Moretz) é uma jovem que passa por essas transformações e que para piorar tem uma mãe muito religiosa e rígida que a criou sozinha, tentando protegê-la dos pecados do mundo. Esta superproteção tornou Carrie uma menina frágil, tímida e inocente, ou seja, um alvo fácil para as meninas mais espertas e maldosas da escola. Carrie era estranha pois, não se vestia com as roupas da moda, não tinha o corte de cabelo adequado, não tinha dinheiro, não era descolada e não tinha amigos. Carrie fugia dos padrões impostos pela sociedade. E quem não é igual a todo mundo é estranho.

Os jovens vivem sob pressão. Escolha da profissão, percepção da sexualidade, procura da identidade, consciência da sua posição social e econômica, atendimento ou não das expectativas dos pais, obediência a normas, dogmas e modas, tudo isto ao mesmo tempo; tudo isto vai se acumulando sobre os jovens, soterrando-os e limitando a visão. Nos EUA, além de todas estas dificuldades, podemos acrescentar a facilidade de adquirir armas de grande potência como fuzis e o exemplo de violência que o próprio país fornece ao praticar sua política externa altamente belicosa e autoritária. Todos estes fatores contribuem para que ocorram estes massacres em escolas. Evidentemente não é só nos EUA que acontecem estas tragédias, já houve registros de casos em outros lugares como na Alemanha (2002). No Brasil houve o caso em Realengo (2011), mas, aqui a violência contra os jovens é uma violência proporcionada pela desigualdade social (consequência do capitalismo contemporâneo), que explode em toda a sociedade, principalmente, nos jovens pobres e negros. No Japão acontece algo diferente, o que assusta não são os massacres, mas o alto índice de suicídios entre os jovens; alguns especialistas culpam o clima de competição instalado na sociedade e as cobranças de desempenho sobre os mais novos.

Nosso atual momento, que está sob a égide do capitalismo financeiro globalizado monopolista, que se reflete em uma sociedade consumista e desigual, é um palco para angústias, inseguranças e medo que se transformam em atos violentos. Este grande mal, que está vitimando os nossos jovens não tem face, é uma maquina que vai nos triturando e nos desumanizando, e é perverso pela sua invisibilidade. Este capitalismo contemporâneo esta inserindo valores torpes que está destruindo o nosso espírito. Não são apenas os jovens que estão sofrendo estes males, muito de nós são a Carrie, muitos de nós são estranhos neste mundo líquido.


CLAUDIO COSTA

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