cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

CASO OU COMPRO UMA BICICLETA?

Já houve vários motivos para se realizar um casamento, como acordo político, conveniência social e desespero financeiro. No século XX, predominou um motivo especial, o amor. Mas será que agora, no século XXI, o amor continua sendo o principal motivo para se casar?


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O casamento é um contrato, um enlace romântico, uma instituição ou uma tábua de salvação? Talvez, ele compreenda todos estes elementos em certas periodicidades; mas o que proponho destacar é o casamento no tempo atual. O chamado casamento por interesse existe, ou melhor, persiste; mas a questão hoje é qual o tipo de interesse que temos como ponto de referência. O interesse econômico está presente e é quase imbatível nesta cultura ocidental capitalista, porém, há um interesse que cada vez mais cresce como fator primordial, o psicossocial.

As pessoas estão se casando como forma de suprir suas ansiedades, suas neuroses e suas angústias; procuram extinguir as suas irremediáveis solidões. O casamento se tornou uma panaceia para todas as veleidades. O futuro cônjuge é mero apêndice, um instrumento para se alcançar o status de casado(a). Há vários casos em que o casal já instalado em seu modus operandi matrimonial se depara com aquele estranhamento do tipo: “quem é você?”. E na verdade, o casal só conhecia o casamento, mas não os membros desse pacto.

Podemos evidenciar o invisível sistema normativo da sociedade, que cobra uma sequência de ações, como um motivo para as pessoas desenvolverem tais angústias. O casamento está no rol dos itens que devemos fazer ou ter para provar pra todo mundo que somos bem-sucedidos. Constam ainda na lista, ser feliz, ter filhos, um bom emprego, uma casa, um carro e ser eternamente jovem. A necessidade de aparentar é maior do que o prazer de ser. Corremos a vida toda pra cumprir este roteiro e não nos questionamos se é isso mesmo o que queremos. Talvez estejamos saciando o desejo da sociedade, mas não do indivíduo. E é neste hiato que surge a angústia. Onde está a liberdade de comprar uma bicicleta em vez de casar?

Estamos vivendo em uma época de pós-modernidade, gerações anteriores conseguiram várias conquistas, principalmente, as liberdades sexuais. Mas, mesmo com tantos avanços conquistados, a quantidade de pessoas que se casam aumenta a cada ano; o velho e tradicional casamento está na moda. Há, inclusive, uma luta (muito justa) pelo casamento entre os homossexuais no mundo todo; todos querem casar. O casamento não deve atender a uma necessidade desta sociedade que vive sob o jugo da ditadura da felicidade. O casamento não deve ser fruto de um desejo compulsório, mas uma opção saudável e voluntária de querer ver o outro feliz. Sim, o outro. A melhor fórmula de casamento é ser feliz fazendo o outro feliz, desde que seja em uma troca igualitária.

O casamento (com assinatura ou não) não deveria ser uma solução burocrática de quem tem que ter alguém do lado; não deveria ser como um preenchimento de um cargo. O casamento deveria ser a aproximação com o outro e a conseqüente descoberta de si mesmo, pois só quando mediamos as posições do eu e do outro é que temos a fórmula para que possamos administrar as nossas liberdades, não como a liberdade cantada por Raul Seixas em A Maçã, pois deve haver limitações que funcionam como uma proteção para o outro; mas sim, como a liberdade de ser o seu Eu original enriquecido pela experiência do outro. Concluindo, o casamento como um processo dialético que distancia a anulação e a dominação, mas que traz pra perto o amor. O casamento está se tornando a união de solidões e angústias; e o sexo, uma masturbação dupla.


CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante..
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