cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

CONSIDERAÇÕES SOBRE 13 DE MARÇO

Neste momento de crise, o diálogo, o respeito e a racionalidade são os antidotos para a radicalização e a intolerância. Ainda estamos tentando entender o que está acontecendo, mas já dá pra fazer algumas considerações.


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Escrevi estas considerações baseado nas manifestações do dia 13 de março de 2016, que protestaram contra a corrupção e contra o Governo. Estas considerações são impressões que colhi e estudo há tempos; embora o texto possa parecer aos radicais que é uma defesa do Governo petista, na verdade, é uma infeliz constatação do imbróglio político em que estamos. Não visto a camisa da seleção brasileira nem a camisa vermelha. Eu visto a nudez, a nudez que quer verdade, a nudez que quer um país melhor. Muita coisa vai rolar no país nos próximos dias e meses, mas espero que a Justiça (apartidária) e a Democracia sejam as plenipotenciárias de novos tempos.

Manifestação: todas as manifestações são válidas e contribuem para o fortalecimento da democracia.

Principais causas da manifestação: a indignação com os casos de corrupção e com a crise econômica. Neste tópico começam as divergências, pois alguns acham que a corrupção é apanágio do PT e outros consideram que a corrupção é endêmica. Quanto à crise econômica, todos sofrem, mas poucos compreendem que ela deriva de vários fatores. Há uma crise mundial que abalou fortemente quase todos os países. Há uma crise política suscitada parte pela inabilidade de diálogo da presidente e parte pelo embate iniciado em 2012 que envolveu o ataque do governo aos lucros dos banqueiros (redução do spread); a partir deste momento, rachou-se a estratégia conciliatória desenvolvida por Lula que mantinha em equilíbrio as relações entre rentistas, produtivistas e sociedade civil. E há uma forte pressão do capital estrangeiro de se instalar no Brasil através de privatizações (alvo principal, o Pré-sal) e empresas como Vanguard Group, Blackrock, Halliburton e Schlumberg querem libar o úbere ainda farto da Petrobras e do país.

Lava-Jato: Tem tudo pra ser o nosso instrumento purificador, o meio pelo qual, poderíamos identificar e afastar da nossa res publica os atravancadores do país, operação que poderia se replicar e atuar em todos os lugares, governos estaduais e municipais, não deixando pedra sobre pedra, até no judiciário. E eu que pensei que a lava-jato seria um modelo de ação para que houvesse uma transformação na mentalidade, na cultura de nosso país. A lição que ela deixa não é que o crime não compensa, mas que o crime nem é crime se você estiver do lado certo. E o lado certo é o lado que tem a principal empresa midiática do Brasil, o lado do mercado financeiro que explicitamente acenou positivamente no dia que houve a condução coercitiva do Lula, fazendo com que houvesse uma recuperação da bolsa e a redução do dólar (ou seja, a economia só está assim porque eles querem), o lado de facções políticas, o lado que quer lucrar com o nosso país, custe o que custar. Infelizmente, esta operação está partidária e seletiva. Aécio e Alckmin foram hostilizados durante as manifestações de março (2016), porém, nada cai sobre eles. A Lava-Jato nasceu ou foi cooptada por grupos específicos que estão mais interessados em assumir o poder total do que buscar realmente a verdade (Aletheia). A lava-jato evidenciou a partidarização da Justiça e a judicialização da política.

Mídia: A mídia teve papel fundamental na divulgação das manifestações, atuando com a colaboração de Sérgio Moro (condução coercitiva), do MP-SP (Triplex/Hegel ou Engels?) e da staff de celebridades globais que forneceram condições para uma maior adesão do movimento. Embora o discurso seja de imparcialidade da mídia, é inquestionável o direcionamento dado às notícias, assumindo, inclusive, uma postura panfletária. Não estamos diante de uma Pátria Educadora, mas sim, de uma Mídia Educadora que ensina a lição que lhe favorece. A Vênus Platinada, por exemplo, que sempre esteve ao lado do poder desde a ditadura civil-militar, passando por Sarney e Lula e chegando ao primeiro mandato Dilma, realiza diariamente um massacre contra o atual governo, o tempo todo, dando míseros segundos de defesa editada (para parecer democrática). Essa postura da mídia aristocrática foi suscitada quando se aventou a possibilidade da democratização midiática. A Vênus nunca esteve ao lado do povo. Às vezes o inimigo do meu inimigo é, também, meu inimigo.

Manifestantes e seus discursos: Não foram manifestações só da classe média, havia outros segmentos que se juntaram ao coro das indignações. Acredito que todos que participaram desejavam e desejam um país melhor e sem corrupção. A dissonância estava no modo que estas pessoas querem esta melhoria do Brasil. Havia vozes pedindo intervenção militar, algumas clamando pelo extermínio do PT (só do PT), outras querendo a ascensão ao poder de figuras proeminentes que pertencem a uma ópera-buffa (Bolsonaro e Feliciano), algumas achavam que estavam em uma micareta e havia vozes pedindo o fim do bolsa-família, das cotas raciais, etc... Conseguimos entender um movimento mais pelo que ele tem de divergências do que de consenso, até porque o consenso pode ser fabricado e a mídia tem expertise nisso (Leiam Chomsky, por favor). A heterogeneidade dos desejos dos manifestantes revela que cada segmento defendia um lado especifico, um lado que acaba excluindo o outro e o país não é feito de um lado, é feito de um todo.

Ódio: Sim, o PT errou feio ao continuar o mesmo jogo que era feito antes. Mas tanto ódio não veio só daí. As classes mais elitizadas detestaram ver os filhos de subalternos estudando com seus diletos e nobres filhos; detestaram ter o mesmo celular do porteiro; como poderiam se diferenciar se os símbolos de status foram democratizados? Os que conseguiram melhorar o poder aquisitivo hoje se angustiam ao ver o real valer menos devido a crise. Os pequenos e médios empresários, estes realmente negligenciados durante este período, seguem o discurso dos megaempresários, o que é um erro, são situações distintas. E o neoliberalismo pra quem quer água pode ser um tsunami. Eu vi muito ódio nas manifestações, ódio que foi inculcado, ódio que cega, ódio que não permite o diálogo. O movimento teve raros casos de violência, todos com pessoas que tentaram agredir supostos petistas. A violência não estava exposta, estava implícita, pois se realizarmos inquirições com a maiêutica socrática veremos que sob o discurso moralizador há ódio, preconceitos e vazios.

Evidentemente, escrevo estas considerações sem neutralidade, não sou neutro, mas tento ser justo. Cada um pensa o que quiser, mas seria interessante se todos nós pensássemos em todos. A radicalização separa (divide et impera), o diálogo une.


CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante..
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