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CLAUDIO COSTA

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PANGEIA PÓS-MODERNA E O BREXIT

A saída do Reino Unido da União Europeia é um sintoma que o sistema globalizado neoliberal está enfermo. Este artigo pretende refletir sobre o funcionamento do mundo neoliberal e o impacto do Brexit.


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O Brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia não significa, pelo menos não imediatamente, o desmantelamento da Globalização, mas representa que a globalização no seu viés neoliberal possui falhas intrínsecas; pior que isso, talvez não sejam falhas, mas componentes inerentemente estruturais desse sistema. Se compararmos a Globalização à teoria da Deriva Continental de Wegener, podemos entender que o processo de globalização foi em sentido inverso ao surgimento dos continentes. Na teoria de Wegener os continentes que conhecemos hoje, separados, formavam uma única massa de terra, um único bloco, chamado Pangeia que era banhado pelo oceano Pantalassa. Com o passar do tempo este continente uno foi se desmembrando, a principio em dois, a Laurásia e o Gondwana; e mais tarde (bem mais tarde), fragmentou-se nos continentes em que a população do planeta Terra se divide atualmente.

Na Globalização aconteceu o justo oposto da deriva continental. Os continentes, ou melhor, os países que estavam separados em suas especificidades econômicas, sociais e culturais começaram a se aproximar e comungar dos mesmos preceitos, só que com uma profunda clivagem entre eles, e logo destoaram dois blocos heterogêneos. O primeiro bloco pode ser identificado com o que Wegener chamou de Laurásia, que era formado pela América do Norte, Ásia, Europa e Ártico, reunindo desta forma, os países mais desenvolvidos e poderosos do planeta. E o outro bloco, chamado de Gondwana, que reunia a América do Sul, a África, a Oceania, a Índia e a Antártica, ou seja, a maioria dos países nestes territórios é pobre. A efetivação total da Globalização levou a uma interação entre todos estes países, querendo ou não, unificando discricionariamente as suas relações econômicas, sociais e culturais: a Pangeia Pós-Moderna.

Os regimes políticos e os sistemas de governo não foram homogeneizados, pois para cada Estado uma estrutura política é mais eficaz para a facilitação do processo globalizador, por isso podemos encontrar países globalizados democráticos, países em que imperam a ditadura, países presidencialistas ou parlamentaristas. A Globalização abarcou políticas distintas, porém, economicamente o viés neoliberal foi o fio condutor dos acordos políticos. A desterritorialização do capital foi o meio e a finalidade da Globalização, a onipresença do capital extinguiu os espaços e através de sua velocidade, proporcionado pelo avanço tecnológico na área das comunicações, diminuiu as distâncias. As cidades, hoje, são cosmopolitas e o nosso quintal é sideral. Agora, o fio condutor, o neoliberalismo, pode ser o agente desagregador, suscitando a fragmentação da Pangeia.

O neoliberalismo monopolista está pervertendo a harmonia da Globalização, o seu movimento deletério aprofunda as desigualdades, gerando incertezas e desequilíbrio no mundo todo; a xenofobia é apenas um reflexo disto. O neoliberalismo não cumpriu o que prometeu, como afirma o relatório do FMI. Há mais pobres agora no mundo do que na época do Estado de Bem Estar social. A riqueza não fluiu para as partes mais baixas da pirâmide social, a riqueza se concentrou. A saída do Reino Unido da UE mostra que as patologias do neoliberalismo chegaram aos países mandatários, tudo era divino e maravilhoso quando os males da desigualdade só se restringiam aos países periféricos. Agora caiu a ficha. Pra quem não entendeu ou não entende o fisiologismo neoliberal trarei a lume a questão: O neoliberalismo não diminui o Estado, quem prega isso é o liberalismo econômico, o neoliberalismo diminui o país como Estado democrático, subjugando o poder da nação, o poder de participação de todos os cidadãos e cooptando o Estado através da classe política para atender às necessidades do mercado; por isso, é necessário o Estado forte o suficiente para erguer, como Atlas, o mundo neoliberal.

Ainda é cedo para afirmar se estamos entrando em um processo de desmembramento da Pangeia Pós-Moderna, porém, após a saída do Reino Unido, e sua desestruturação com um possível desligamento da Escócia e da Irlanda do Norte, está ficando nítido que as placas tectônicas da Globalização estão começando a se moverem com mais violência.


CLAUDIO COSTA

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