cinema e reflexão

Filmes antigos por novos ângulos

CLAUDIO COSTA

Exercite o cérebro: é uma hipertrofia gratificante.

SIGLONIMIZAÇÃO OU A VELOCIDADE DA FUGA

As siglas, símbolos (emoticons) e abreviaturas talvez sejam um indício que estejamos superficializando as nossas relações.


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Estamos simplificando tudo, o que seria algo positivo se não estivéssemos simplificando também a nossa linguagem. E a simplificação a que me refiro não é uma facilitação de comunicação, mas uma pauperização de conteúdo. O hábito de abusar de siglas (siglonimização) e abreviaturas em qualquer texto segue o fluxo do imediatismo de nossa atual sociedade. Esta celeridade encontrou materialização nos instrumentos vigentes de comunicação, as tecnologias digitais propiciaram através de meios e de fins que absorvêssemos esta linguagem, esta cultura. Somos rápidos para interagir sobre assuntos que esquecemos tão logo acabamos de escrever. Os veículos pelos quais nos comunicamos não nos permitem aprofundamento, acostumamo-nos a só ler escritos com um número limitado de caracteres. O chamado “textão” cansa só de olhar.

Estamos diante de um fenômeno que denomino como siglonimização cultural, ou seja, estamos reduzindo a nossa capacidade de intelecção e lendo e interpretando os acontecimentos e os fatos sob esta parca perspectiva. Quando efetuamos a formação de uma sigla, na verdade, temos o intuito de tornar dinâmica a leitura, porém, as siglas representam uma nomenclatura mais complexa que abarcam uma codificação implícita e, ao mesmo tempo, exógena. A dificuldade reside na inobservância desta complexidade; as siglas deixam de representar para ser, ou seja, assumimos o entendimento abreviado dos fatos sem vasculharmos o seu conteúdo e a sua profundidade.

A velocidade que nos foi imposta e assimilada, sem o mínimo de questionamento, empurra-nos a um precipício cada vez mais iminente. Desta forma, a única profundidade que conhecemos é aquela que nos leva ao nosso fim. Estamos cada vez mais superficiais, cada vez mais abreviados para o Outro. Ninguém conhece ninguém porque somos siglas e acrônimos sem explicação; o Outro só sabe o resumo do meu Eu, mas não o meu Eu inteiro. O EU tem milhões de caracteres. E enquanto ao amor? O amor virou um emoticon, pois fica mais fácil de curtir. Casais não mais conversam, não mais se conhecem, apenas compartilham o mesmo status de relacionamento; e na superficialidade segura do casamento trocam emoticons.

Às vezes, desconfio que este excesso de velocidade, que esta pressa toda, não passa de uma fuga. Estamos correndo porque estamos fugindo. Estamos fugindo desta caçada hobbesiana, fugindo do lobo do homem que é o próprio homem. Estamos fugindo das pressões que aceitamos da sociedade. Estamos fugindo do Outro, por medo que alguém descubra quem somos de verdade, que descubra que somos mais que siglas. Estamos fugindo de nós mesmos (do nosso Eu) por medo de constatarmos que nos tornamos nada mais que siglas.


CLAUDIO COSTA

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